Pertencente à mesma geração de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, o carioca Sergio Bernardes (1919-2002) foi um arquiteto de importância e talento equivalentes aos deles. Chegou mesmo a ser famoso e reconhecido, mas caiu em desgraça por uma desastrada aproximação com os ditadores de 1964, com quem tentou colaborações profissionais, ficando marcado por isso nos meios intelectuais.
Concorrente na mais recente edição do Festival É Tudo Verdade, o documentário Bernardes, deGustavo Gama e Paulo Barros,investiga a dubiedade que cerca a figura do arquiteto, fornecendo elementos para revelar a conturbada personalidade de Bernardes, cuja ruptura com a primeira esposa provocou mágoas familiares que perduraram até seus netos e contribuíram para um afastamento deles da figura do avô.
Um destes netos, Thiago, também arquiteto, é o motor deste filme, revisitando o trabalho do avô, como as casas e hotéis que projetou. Ao mesmo tempo, no entanto, este neto é muitas vezes uma figura excessiva no filme, com intervenções que resultam desnecessárias.
Flui melhor o documentário quando a obra de Bernardes fala por si mesma, em sua grande beleza e caráter por vezes inovador e mesmo visionário, como a casa de Lota Macedo Soares, o Pavilhão São Cristóvão e o Tropical Hotel Tambaú. O material de arquivo reunido é também extraordinário.
O documentário contribui para um merecido resgate de um personagem importante quando se repensa a arquitetura brasileira.
