É fato a se comemorar a chegada de O Pequeno Fugitivo aos cinemas brasileiros – com um atraso de mais de 60 anos, desde a primeira exibição do longa, no Festival de Veneza, de onde saiu com o prêmio de direção, batendo cineastas do porte de William Wyler, Marcel Carné, Ingmar Bergman, Michelangelo Antonioni e Federico Fellini, só para citar alguns dos qualificadíssimos concorrentes naquela disputa. Esse longa delicado, e ao mesmo tempo sofisticado, é o resultado do esforço conjunto do diretor de fotografia Morris Engel, sua mulher Roth Orkin, e de Ray Ashley, que, aqui, deram os primeiros passos do cinema independente norte-americano, que iria florescer nas décadas seguintes.
O cineasta francês François Truffaut confessou, certa vez, que não fosse a inspiração de O Pequeno Fugitivo, é pouco provável que faria Os Incompreendidos – e ao ver o filme americano é fácil entender essa afirmação. É também pouco provável que John Cassavettes fizesse o seu Sombras – ao menos do modo como foi feito. Enfim, o filme de 1953 ecoa até hoje, ao retratar de forma independente, numa produção amadora (na acepção original da palavra: motivada pela paixão).
A forma da narrativa é aquilo que se chama de slice of life (“uma fatia da vida”) de dois irmãos de classe média baixa, sozinhos num final de semana no Brooklyn, quando a mãe viajou para visitar a avó doente. O mais velho, Lennie (Richard Brewster), quer se livrar do caçula, Joey (Richie Andrusco), e, com ajuda de amigos, faz uma encenação que leva o irmão a acreditar que o matou com um tiro. Assustado, o pequeno foge, e o filme acompanha sua jornada de descoberta sobre o mundo e si mesmo.
A fuga de Joey envolve parque, praia e passeios com um pônei. Nessa descoberta, o menino aprende a dura sobrevivência de modo simbólico – por exemplo, que se juntar garrafas abandonadas pela areia, poderá vendê-las e conseguir dinheiro para gastar nos brinquedos.
Na forma, o trio de diretores mantém a proposta experimental e o longa ganha em detalhes à medida que o dia avança, assim como a jornada do protagonista-mirim. Um exemplo disso é a fotografia em preto e branco, ou o tom documental das interações do pequeno Andrusco, que não seguiu carreira como ator.
