14/06/2026
Drama

Blind

Ao ficar cega, Ingrid precisa se readaptar. Começa, então, a escrever um livro, e, aos poucos, sua criatividade voa alto, e sua ficção se mistura com sua vida.

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Em Blind, do norueguês Eskil Vogt, cegueiras reais e simbólicas alteram a vida das personagens. Por conta de uma condição genética, Ingrid (Ellen Dorrit Petersen) ficou cega há pouco. Está se adaptando à nova vida, descobrindo como se mover pela casa, como esquentar sua comida sem precisar de ajuda e outras tarefas. Durante o dia, fica sozinha, enquanto seu marido Morten (Henrik Rafaelsen), está trabalhando. Dona de muita criatividade, começa a escrever um livro em seu computador adaptado. Se vai publicar ou se é mera forma de passar o tempo, pouco importa.
 
Em sua história, Einar (Marius Kolbenstvedt) é um sujeito solitário que divide seu tempo entre o trabalho e pornografia no computador, até que começa a observar uma moradora do prédio em frente ao seu, Elin (Vera Vitali), mãe divorciada e sem muitas distrações na vida. Aos poucos, Ingrid não impede que suas fantasias literárias invadam sua vida. Vogt, então, em seu filme, passa a brincar com um recurso até comum (quase a ponto de se tornar banal) em filmes sobre escritores: o que é realidade e o que é ficção?
 
Se tudo isso corre o risco de cair no clichê surrado, o diretor sutilmente coloca um dado que pode trazer o presente e levantar questionamentos. A certa altura, Einar vai a uma espécie de memorial, em frente a um prédio, repleto de gente chorando, flores e vidros estilhaçados. Pode ser uma referência aos ataques do terrorista norueguês de 2011, Anders Behring Breivik, que foi condenado por matar 77 pessoas em dois atentados.
 
O fato é que Vogt parece querer, com seu filme, apontar uma cegueira que pode ganhar força na Europa. Quando Ingrid começa a exagerar na sua criação e imagina que o marido está tendo um caso com sua personagem, Elin, ela torna a moça cega, como ela. É uma cegueira artificial criada pela autora para punir a personagem, que, ao mesmo tempo reflete a cegueira europeia para a ascensão de uma extrema direita perigosa. A deficiência visual de Ingrid é genética e pode ser transmitida a seu filho ou filha, se engravidar – e a cegueira simbólica, por sua vez, pode se perpetuar de geração em geração, a não ser que uma nova narrativa comece a ser escrita.
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