O roteiro, que segue a obra, é ambientado no final da Segunda Guerra Mundial (1944) e retrata as agruras sofridas por dois irmãos gêmeos (András e László Gyémánt), de 13 anos. Cabe dizer que Kristof apenas dá nome a esses dois personagens, Claus e Lucas, referindo-se aos demais como mãe, pai, oficial etc.; ela sequer faz referência ao país em que estão. Já o diretor retira até mesmo essa conexão social dos meninos, chamando-os e “um” e “outro”.
Mas ambos passam a entender que apenas conseguirão sobreviver à penúria e ao drama bélico despindo-se de qualquer escrúpulo ou sentimento. Passam a roubar, chantagear e até matar, em prol da própria conservação. E seguem os exemplos que os cercam: a vizinha ladra e mentirosa, o gélido oficial nazista (suspeita-se que pedófilo), o padre obsceno e sua ajudante cruel (ridiculariza judeus que marcham para a morte).
Narrado pelos garotos, o diário torna-se cada vez mais desumano, como um manual cruel e impiedoso de resistência às adversidades. Mais do que isso, treinam o próprio corpo para não sentir dor, fome ou emoções para não demonstrar fraquezas ao mundo.
Apesar da dificuldade de adaptar uma obra tão complexa, e acertar a atmosfera e tom que Agota Kristof imprime a seus livros, o veterano Szász consegue, pelo menos, trazer o espírito da obra. Além da competência como realizador, contou com a fotografia de Christian Berger (colaborador de Michael Haneke em filmes como A Fita Branca, por exemplo), um trabalho que confere às cenas ainda mais força. Por isso, foi o candidato natural do país a disputar uma das vagas para melhor filme estrangeiro para o Oscar 2014.
