Habitantes de três aldeias em sua reserva no Mato Grosso do Sul, os índios Kadiwéu lutam para manter seu território, que sofre invasões de pecuaristas, e defender sua cultura, que sofre o assédio de religiões e problemas como bebidas e drogas. A diretora Lúcia Murat, que os conheceu para a filmagem de "Brava Gente Brasileira" (2001), volta ao território para reavaliar o período transcorrido do primeiro contato com eles.
- Por Neusa Barbosa
- 15/07/2015
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Em 1997, a cineasta Lúcia Murat teve seu primeiro contato com os índios Kadiwéu, do Mato Grosso do Sul. Na época, preparava-se para fazer um filme, o drama histórico Brava Gente Brasileira, que foi lançado quatro anos depois, com a participação de alguns indígenas. Uma participação que incorporou suas próprias histórias de luta desde a colonização europeia que, quase sempre, promoveu sua dizimação.
Entre esses índios cavaleiros, antigamente chamados de Guaicurus, foi sempre forte o traço heroico, inclusive na mitologia sobre sua origem. Segundo seus mitos, estes foram os índios que “não esperaram por Deus” quando, na criação do mundo, ele distribuía seus dons e ferramentas. Os Kadiwéus logo tomaram a iniciativa de fazer seus próprios instrumentos, daí advindo seu direito a um grande território.
O carisma e originalidade desta tribo captaram, nos anos 1930, a atenção do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss. Décadas mais tarde, também o brasileiro Darcy Ribeiro os estudou.
Dezessete anos depois daquele primeiro contato, a diretora e seu assistente, Rodrigo Hinrichsen, voltaram à reserva Kadiwéu para um balanço da vida desse povo. Mais de 30 anos após a demarcação de suas terras, em 1984, eles ainda disputam parte de seus 538.000 hectares com pecuaristas. Um mês antes que as câmeras voltassem a filmá-los, em 2014, eles haviam pintado o rosto de preto e invadido uma fazenda dos brancos estabelecida em seu território. Ao mesmo tempo, a questão era analisada pela justiça.
O documentário toma o pulso desta crise, que mostra a persistência da tensão com o mundo branco. Outros problemas espreitam, como a entrada de bebidas e drogas na reserva e um certo congestionamento religioso.
Nada menos do que cinco igrejas evangélicas estabeleceram-se na reserva, a partir de 1968, sendo que hoje todas são lideradas por pastores indígenas. A conversão foi facilitada pela tradução da Bíblia cristã ao idioma local.
Observa-se aqui uma comunidade inserida na luta por sua própria identidade. Há os índios que desejam permanecer na reserva. Outros partem para a cidade (a mais próxima é Bodoquena, a 30 km de distância), mas nem sempre querendo lá ficar – muitos desejam estudar e preparar-se para uma volta posterior. Mas tanto os que ficam quanto os que partem sabem sua língua.
Desde o tempo de Lévi-Strauss, houve progressos. Oitenta anos atrás, o antropólogo encontrou 200 índios. Hoje, são 2.000, divididos nas três aldeias da reserva. Mas seus problemas estão longe de acabar. Seis meses depois da invasão da fazenda dos brancos, a justiça deu aos últimos a reintegração de posse, apesar de se tratar de terra indígena. Os Kadiwéus continuam lutando na justiça, mais uma vez não esperando passivamente pela intervenção divina.
Um mês depois da filmagem, o cacique Ademir Matchua foi morto por outro índio, no meio da disputa pelos novos rumos de seu povo.
