19/07/2026
Documentário

A nação que não esperou por Deus

Habitantes de três aldeias em sua reserva no Mato Grosso do Sul, os índios Kadiwéu lutam para manter seu território, que sofre invasões de pecuaristas, e defender sua cultura, que sofre o assédio de religiões e problemas como bebidas e drogas. A diretora Lúcia Murat, que os conheceu para a filmagem de "Brava Gente Brasileira" (2001), volta ao território para reavaliar o período transcorrido do primeiro contato com eles.

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Em 1997, a cineasta Lúcia Murat teve seu primeiro contato com os índios Kadiwéu, do Mato Grosso do Sul. Na época, preparava-se para fazer um filme, o drama histórico Brava Gente Brasileira, que foi lançado quatro anos depois, com a participação de alguns indígenas. Uma participação que incorporou suas próprias histórias de luta desde a colonização europeia que, quase sempre, promoveu sua dizimação.
 
Entre esses índios cavaleiros, antigamente chamados de Guaicurus, foi sempre forte o traço heroico, inclusive na mitologia sobre sua origem. Segundo seus mitos, estes foram os índios que “não esperaram por Deus” quando, na criação do mundo, ele distribuía seus dons e ferramentas. Os Kadiwéus logo tomaram a iniciativa de fazer seus próprios instrumentos, daí advindo seu direito a um grande território.
 
O carisma e originalidade desta tribo captaram, nos anos 1930, a atenção do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss. Décadas mais tarde, também o brasileiro Darcy Ribeiro os estudou.
 
Dezessete anos depois daquele primeiro contato, a diretora e seu assistente, Rodrigo Hinrichsen, voltaram à reserva Kadiwéu para um balanço da vida desse povo. Mais de 30 anos após a demarcação de suas terras, em 1984, eles ainda disputam parte de seus 538.000 hectares com pecuaristas. Um mês antes que as câmeras voltassem a filmá-los, em 2014, eles haviam pintado o rosto de preto e invadido uma fazenda dos brancos estabelecida em seu território. Ao mesmo tempo, a questão era analisada pela justiça.
 
O documentário toma o pulso desta crise, que mostra a persistência da tensão com o mundo branco. Outros problemas espreitam, como a entrada de bebidas e drogas na reserva e um certo congestionamento religioso.
Nada menos do que cinco igrejas evangélicas estabeleceram-se na reserva, a partir de 1968, sendo que hoje todas são lideradas por pastores indígenas. A conversão foi facilitada pela tradução da Bíblia cristã ao idioma local.
 
Observa-se aqui uma comunidade inserida na luta por sua própria identidade. Há os índios que desejam permanecer na reserva. Outros partem para a cidade (a mais próxima é Bodoquena, a 30 km de distância), mas nem sempre querendo lá ficar – muitos desejam estudar e preparar-se para uma volta posterior. Mas tanto os que ficam quanto os que partem sabem sua língua.
 
Desde o tempo de Lévi-Strauss, houve progressos. Oitenta anos atrás, o antropólogo encontrou 200 índios. Hoje, são 2.000, divididos nas três aldeias da reserva. Mas seus problemas estão longe de acabar. Seis meses depois da invasão da fazenda dos brancos, a justiça deu aos últimos a reintegração de posse, apesar de se tratar de terra indígena. Os Kadiwéus continuam lutando na justiça, mais uma vez não esperando passivamente pela intervenção divina.
 
Um mês depois da filmagem, o cacique Ademir Matchua foi morto por outro índio, no meio da disputa pelos novos rumos de seu povo.
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