03/06/2026
Drama

Hipóteses para o Amor e a Verdade

Baseado num espetáculo teatral de 2009 do grupo teatral paulistano Satyros, o longa acompanha alguns dias na vida de um grupo de pessoas, sofrendo com a solidão e o caos de São Paulo.

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Hipóteses para o amor e a verdade é o primeiro longa produzido pelo grupo de teatro paulistano Satyros. Baseado numa peça de 2009, o filme é uma espécie de anfíbio, que não é bem teatro, nem exatamente cinema. No fundo, trata-se de uma crise de identidade ambulante, repleto de excessos narrativos, visuais e de ambição.
 
Dirigido por Rodolfo García Vázquez, a partir de um roteiro de Ivam Cabral (que também atua no filme), Hipóteses... se propõe a um retrato de São Paulo em seu caos e solidão. Não é bem um assunto novo – é, na verdade, algo explorado à exaustão pelo cinema, televisão, teatro e literatura, a ponto de se tornar um clichê. O longa acompanha um grupo de pessoas em suas experiências pela cidade, cujas vidas, de algum modo, irão, em algum momento, para a Praça Roosevelt (no centro da cidade e local onde fica a sede do grupo).
 
É difícil criar alguma empatia por essas personagens, pois parecem apenas criaturas de ficção criados com algum propósito dramático – embora sejam inspirados em entrevistas com pessoas reais. Nany People é uma radialista que, de tempos em tempos, aparece no longa trazendo fatos sobre São Paulo. O que ela diz é uma mistura de wikipedia com prosa poética, narrada como poema maldito. Além dos números básicos – habitantes, densidade demográfica, quarteirões, ruas etc – há outros como o de suicídios por ano.
 
Dividida em partes que evocam regiões de São Paulo – como a Luz – Hipóteses...  em sua vontade de dizer muito é tão sem rumo quanto seus personagens. Conhecemos um rapaz (Gustavo Ferreira) que trabalha num escritório, alienado em rua rotina, sonhando com as férias ideiais. Convida uma prostituta grávida (Luiza Gottschalk) para ir com ele. Depois entram em cena um diretor de teatro (Cabral), e sua ex-mulher (Cléo de Páris), que vivem um trauma do passado. Há também o irmão almofadinha dele (Tiago Leal), dono de um sotaque carregado, que transita pelo centro de SP em busca de sexo como forma de autoafirmação. Há ainda a mãe deles (Phedra D. Córdoba), rica e catatônica, abandonada pelos filhos e cuidada por uma enfermeira (Esther Antunes), e, por fim, um suicida (Robson Catalunha), que conversa com a radialista pela internet.
 
É clara a opção do diretor e do roteirista de não fazer uma narrativa ao modo clássico. O filme resulta num acúmulo de estudo de personagens sem nunca se aprofundar de verdade na história de cada um. Assim, eles transitam entre o patético (o sujeito do escritório) e o fetiche – especialmente a prostituta, que em algumas cenas aparece completamente enrolada de plástico-filme, enquanto seu namorado-cafetão-traficante (Paulinho Faria) abusa dela. Talvez no teatro, com sua construção ímpar, Hipóteses... funcione melhor. No cinema, parece uma dúzia de personagens e quase-histórias vagando sem rumo, em busca de algo em que se ancorar.
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