20/07/2026
Comédia

A Nós a Liberdade

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Tempos Modernos (36), a obra-prima de Charles Chaplin que ironiza a sujeição do homem à máquina, é um clássico para várias gerações de cinéfilos. Mas nem todos conhecem a matriz de sua idéia, a comédia francesa A Nós A Liberdade, de René Clair, um dos trabalhos mais conhecidos e marcantes daquele que foi considerado por muito tempo o representante máximo do estilo francês de fazer cinema.

A história registra que o estúdio francês Tobis chegou a cogitar um processo de plágio contra Chaplin, mas o próprio Clair recusou-se a tomar parte nisso. Talvez por cavalheirismo, talvez por reconhecer que Tempos Modernos tinha usado, afinal, apenas uma pequena parte de seu filme e feito melhor proveito da semente política que, sem dúvida, existe por trás da aparência despretensiosa de sua história.

Parisiense do bairro de Halles, nascido em 1898, Clair foi jornalista, depois ator e finalmente cineasta. Ficou famoso a partir de seu segundo filme, Entr'acte (25), onde flertava com o florescente surrealismo da época ao som muito adequado das melodias de Erik Satie. Em A Nós a Liberdade (31), ele bebeu na fonte do anarquismo para contar a história de dois amigos que se conhecem na prisão.

Em depoimento a Georges Cherensol, Clair admite sem rodeios suas intenções panfletárias ao fazer este filme: "Foi a época em que estive mais próximo à extrema esquerda, em que combatia a máquina quando ela se tornou mais uma servidão do que um instrumento de felicidade para o ser humano". Mas não há discurso nem severidade para passar a mensagem, pois Clair adere claramente à fórmula da opereta.

Ainda dentro da cadeia, os detentos cantam versos assim: "A liberdade é tudo na vida/ Mas os humanos criaram as prisões, os regulamentos, as leis, as boas maneiras/ E o trabalho, os escritórios, as casas/ Será que tenho razão? Meu amigo, a vida é bela/ quando se tem a liberdade/ Não vamos esperar, vamos atrás dela/O ar puro faz bem à saúde". Seguindo à risca a letra da canção, os amigos Émile (Henri Marchand) e Louis (Raymond Cordy) planejam uma fuga. Mas só Louis consegue pular os muros e, por uma série de coincidências, torna-se um próspero fabricante de gramofones.

Os antigos companheiros de cela voltam a encontrar-se quando Émile é libertado. Depois de um curto mal-estar, pois Louis desconfia de que o outro pode querer chantageá-lo, a amizade é alegremente retomada, com Émile assumindo um emprego na fábrica apenas para ficar mais perto da garota por quem se apaixonou (Rolla France). No cotidiano fabril, com linhas de montagem em que operários são submetidos a uma rotina mecânica e implacável, salta aos olhos a semelhança com a vida na prisão - e está justamente aí a seqüência inspiradora de Chaplin. Mas a partir disto os rumos são outros. Ao invés de pregação política, Clair prefere um elogio à vagabundagem que hoje pode parecer ingênuo mas é sincero e divertido - especialmente por seu humor essencialmente físico, ainda muito enraizado no cinema mudo em que o diretor começou.

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