20/07/2026
Documentário

Homem comum

Por 20 anos, o documentarista Carlos Nader acompanhou momentos pontuais da vida do caminhoneiro Nilson de Paula. Da existência deste homem simples, ele extrai situações que sinalizam a amplitude da vida humana.

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Durante quase 20 anos, o cineasta Carlos Nader acompanhou a vida do caminhoneiro Nilson de Paula. A princípio, este era apenas um dos personagens de um projeto que, a longo prazo, naufragou. Por motivos misteriosos, determinados pelo acaso e por afinidades que só o tempo esclareceria, os dois nunca mais se afastaram, tornando-se parte da vida um do outro.
 
O resultado dessa convivência, que deixou de ser acidental para tornar-se matéria de cinema, está no documentário Homem Comum, que venceu a seção brasileira do Festival É Tudo Verdade em 2014. Como acontece muito na obra de Nader (autor do igualmente premiado Pan-Cinema Permanente, 2008), trata-se de um filme com várias camadas, que combinam não só as etapas da vida do protagonista e sua família, como as hesitações e mudanças de rumo do próprio diretor diante de seu trabalho – o que só lhe acrescenta complexidade e humanidade.
 
O título faz jus a Nilson de Paula, um caminhoneiro do Paraná, casado com Jane e pai de uma única filha, Liciane. A câmera de Nader começa a captá-lo na juventude, quando vigorava ainda o projeto do diretor de discutir o sentido profundo da vida com seus entrevistados. Não raro, eles são surpreendidos pelo teor metafísico das questões de Nader, que deseja saber se eles nunca consideraram a vida estranha, ou tiveram a sensação de que se parece com um sonho.
 
Somando outra bem-vinda estranheza a um projeto que, afinal, se mostra tudo menos prosaico, inserem-se trechos do clássico A Palavra (55), do diretor dinamarquês Carl Theodor Dreyer, e também de um outro filme ficcional, como o de Dreyer, em preto-e-branco. Que filme é este segundo fica claro no final, somando-se aos experimentos levados adiante pelo diretor nesta exploração sobre a afinal não tão singela trajetória dos seres humanos sobre a Terra.  
 
Importante dizer que Nader não fecha os caminhos à percepção ativa de seus espectadores diante do que veem da vida de Nilson e sua família. A recatada domesticidade das imagens desta pequena família proletária, na casinha simples e arrumada, na mesa farta, na geladeira e na TV, na menina Liciane que busca o seu teclado para mostrar seus dotes musicais ao cineasta-visitante, nas conversas e gestos triviais, afinal aponta para o significado mais amplo procurado desde o início.
 
Esses momentos do passado servem como contraste agudo às sequências do início do filme, mostrando Nilson já mais velho, doente, diante da filha adulta que cobra um afeto que ele tem dificuldade em verbalizar. O que tudo isso, afinal, tem a ver com A Palavra, que relata a experiência mística de um homem comum que se anuncia como Cristo redivivo, despertando o ceticismo de sua família, que o considera louco? A resposta está na forma como o filme dinamarquês e a vida da família de Paula se defrontam com a morte de um dos membros, aproximando ficção e realidade, distantes no tempo e no espaço, de uma forma exemplar e poética, mesmo sem uma correspondência literal.
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