19/07/2026
Documentário

Orestes

Ouvindo histórias de ex-presos políticos, pais de jovens mortos pela polícia, um policial, uma enfermeira e uma defensora da pena de morte, o documentário explora ideias e posições sobre temas candentes no Brasil hoje, como os conceitos de justiça, reparação, vingança e memória. Também recorre ao psicodrama e a um julgamento simulado para expor argumentos e mecanismos sobre estes temas.

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Desde 2010, ano em que venceu o prêmio principal da competição brasileira do Festival É Tudo Verdade, com o magnífico documentário Terra Deu, Terra Come, o cineasta Rodrigo Siqueira planejava um novo trabalho, explorando os meandros da justiça e as heranças malditas da ditadura militar.
 
Nestes cinco anos, Siqueira abriu caminhos e desdobrou camadas, que resultaram em outra obra de fôlego e consistência, Orestes, em cuja tessitura chama a atenção a multiplicidade de vozes que ele consegue incorporar na matizada reflexão que o filme lança para seus espectadores – e que não poderia chegar em momento mais oportuno para o país.
 
Recolhendo uma de suas fontes de inspiração, de onde advém seu título, na tragédia grega – a trilogia Orestíada, de Ésquilo -, o cineasta também sinaliza que a discussão sobre vingança, olho por olho, dente por dente, de um lado, e justiça e reparação dentro de um mecanismo civilizatório, de outro, é tão velha quanto a humanidade. Na tragédia de Ésquilo, Orestes, que matara a mãe, Clitemnestra, para vingar o pai, Agamenon, é objeto de um julgamento por cidadãos atenienses e absolvido pelo voto da deusa Minerva, inaugurando no imaginário coletivo justamente o embrião da justiça institucionalizada, o Estado de Direito – como é recordado num letreiro que inicia o filme.
 
Um aspecto importante está nos cenários. Um deles, as dependências de um prédio abandonado, em que funcionava um dos locais de tortura do DOI-Codi, na rua Tutoia, em São Paulo, revisitado por uma das vítimas, o ex-preso político José Roberto Michelazzo. As recordações mais eloquentes dos muitos crimes da ditadura, no entanto, saem da biografia de outra personagem marcante, Ñasaindy de Araújo Barrett, a filha da militante política Soledad Barrett Viedma, esta uma das vítimas do notório Massacre da Chácara São Bento (1973), perpetrado pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury a partir das delações de um agente duplo infiltrado na guerrilha, o cabo Anselmo – que era amante de Soledad, que estaria grávida de um filho dele ao ser barbaramente assassinada.
 
O grande êxito do filme é como articula os detalhes destas histórias, apresentadas não da maneira convencional, mas costuradas ao longo de encontros com personagens de filiações ideológicas e problemáticas sociais bem diferentes. Entre eles, um policial, uma militante de ONG que defende a pena de morte, pais de jovens mortos pela polícia em supostos “autos de resistência” e uma enfermeira que trabalha na periferia da zona sul paulistana.
 
Reunidas num teatro (o velho teatro TAIB, no Bom Retiro) para um psicodrama, estas pessoas encontram-se em situação de expressar não só opiniões como também sentimentos. Indivíduos de posicionamentos opostos são, assim, estimulados a se ouvirem mutuamente num processo que a sociedade nem sempre encoraja, muito menos permite – em geral, os grupos se encastelam em seus respectivos guetos e se atacam apenas de longe, pelas redes sociais, sem nunca terem oportunidade ou desejo de ouvirem o outro lado. A vantagem do recurso do psicodrama é romper as amarras das convenções socialmente aceitas, permitindo que venham à tona as questões de que o filme quer tratar, como revanche e reparação, sobre as quais persistem tantas representações simbólicas e autoritárias introjetadas no fundo de todos nós.
 
Uma outra instância desemboca no julgamento de um caso fictício, de um personagem igualmente chamado Orestes, cuja história mescla elementos tanto de seu ancestral teatral grego como da biografia de Ñasaindy – este Orestes matou o pai, Gilson, que ele conheceu naquele dia, para vingar a mãe, militante política denunciada por ele e cuja morte o menino Orestes, escondido, assistiu secretamente.
 
Protagonizado por profissionais reais, como o juiz José Henrique Torres, o promotor Maurício A. Ribeiro Lopes e o advogado José Carlos Dias, no Salão Nobre da Faculdade de Direito do Largo de S. Francisco, da USP, o julgamento permite não só revisitara formalidade do mecanismo judicial, como coloca em foco as ideias estabelecidas sobre o direito de autodefesa, legítima defesa, vingança. Também se discute ali até mesmo a Lei da Anistia, de 1979, que poupou os torturadores, uma sombra que até hoje paira sobre a reconciliação do país com os horrores desse passado recente. Horrores que, aliás, contaminam ainda uma parcela das forças policiais responsáveis pelos reincidentes massacres de jovens da periferia, dos quais há casos lembrados pelo filme.
 
A maior beleza de Orestes é conter tantos caminhos quanto abrir muitos outros. O filme permanece conosco muito depois que o vemos, dialogando com nossos sentimentos e conceitos. Nada melhor do que o bálsamo desta sua procura por civilização e esclarecimento contra o veneno do discurso do ódio e da barbárie para descontaminar os tempos que correm.
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