Não é preciso um exercício de memória muito grande para o leitor se recordar de ao menos um dos vários casos policiais que mais causaram comoção nacional nas últimas décadas mas depois uma radical reversão de expectativas. O Brasil já presenciou essa situação, por exemplo, no famigerado caso Escola Base, ocorrido em 1994, em que o inquérito policial e a cobertura de imprensa, apressados e parciais, foram responsáveis por um dos julgamentos públicos mais absurdos da história do país. As denúncias de abuso infantil fecharam a escola e marcaram profissional e socialmente os indiciados injustamente, que chegaram a ser ameaçados de linchamento. Acusada (2014), candidato da Holanda que entrou na lista de pré-selecionados do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro da última edição, resgata um acontecimento de repercussão semelhante, embora o erro lá tenha sido mais grave, já que a dúvida apareceu com anos de atraso, após as decisões da Justiça.
Paula van der Oest, que já teve outro trabalho indicado à Academia norte-americana, a comédia Zus & zo (2001), começa seu novo longa com a protagonista Lucia de Berk (Ariane Schluter, de A Montanha Matterhorn), ou apenas Lucia de B., como ficou conhecida nos noticiários – além de ser o nome original do filme –, encarcerada em uma van. Imageticamente, ela abre com a condenação pública prévia que boa parte da população holandesa conferiu à enfermeira, acusada de assassinato e tentativa de homicídio de sete bebês e idosos. Graças à comoção gerada pelo circo midiático montado em torno do processo do “Anjo da Morte”, a mulher foi também condenada judicialmente.
A trama volta a setembro de 2001, para apresentar sua protagonista como a enfermeira, cuja frieza em suas relações interpessoais não se refletia no trato da enfermeira com seus pacientes, e a antagonista Judith Jansen (Sallie Harmsen, de O Sequestro de Heineken), uma assistente de promotoria novata, ansiosa para mostrar serviço logo no primeiro caso. Com a morte de um bebê sob a sua tutela, o administrador do hospital (Barry Atsma) afasta Lucia e, com base nas declarações de suas colegas de trabalho e um segundo laudo necrológico que indica envenenamento, passa a acusá-la desta e de outras mortes no hospital e em seus trabalhos anteriores.
A jovem Judith ajuda a promotora Johansson (Annet Malherbe) a pegar elementos para traçar um perfil psicopata para de Berk, chamada de bruxa, a partir de seu passado com abusos e prostituição infantil, o gosto por livros de serial killer, sua predileção por tarô e frases aleatórias no diário da acusada, que, mesmo frágeis, levaram a mulher à prisão perpétua.
A direção de van der Oest é eficiente na criação de um clima de suspense, apesar do final ser de fácil acepção já pelo que está implícito no material de divulgação do filme. A câmera de Guido van Gennep movimenta-se suavemente, em especial nas cenas iniciais no hospital, conferindo uma tensão genuína, que, infelizmente, não encontra força equivalente nas sequências do tribunal. A seu favor está a opção por não abusar do sentimentalismo no retrato de uma tragédia pessoal tão contundente.
A paleta de cores cinzenta que dá o tom do filme demonstra tanto o olhar frio da obra para o assunto retratado, quanto se refere à sua gélida protagonista, cujo comportamento acabou se voltando contra ela na concepção externa que fizeram dela. Destoa, porém, dos flashbacks amarelados, cuja abordagem se assemelha mais à dramatizações de programas vespertinos. Fora da dualidade criada entre acusada e acusadora, o roteiro de Monique Kramer e Tijs van Marle é esquemático e ganha força porque a história real é interessante por si só, além da performance de Schluter conferir a profundidade suficiente para uma protagonista cuja empatia não está tão evidente.
Em certo sentido, a mesma mídia que condenou Lucia agora faz um mea culpa em forma de filme, introduzindo a fictícia figura da assistente de promotoria. A urgência em mostrar serviço, em julgar alguém, cega Judith a ponto de ela pegar qualquer elemento e transformá-lo a favor de seu discurso. Não é a toa que a personagem não possui nenhum detalhamento como pessoa, pois, embora a falta de um passado e uma personalidade possa gerar certo estranhamento, a mesma reflete a mudança da opinião pública no caso, assim como representa a esperança na equidade da Justiça, tão abalada na Holanda após o controverso processo.
Se a fala dela sobre a utilização do perfil de suspeitos nos julgamentos norte-americanos pode causar uma risadinha no espectador, a comicidade se torna tragicômica quando se percebe as distorções se repetem, dia após dia, nos tribunais virtuais das redes sociais, desde as pequenas causas aos mais complexos casos em discussão.
