20/07/2026
Documentário

Cidade de Deus - 10 anos depois

Estrondoso sucesso nas telas, participante do Festival de Cannes e indicado a 4 Oscars, o filme "Cidade de Deus" (2002) teve um impacto estrondoso também na vida de seus atores, muitos deles moradores de favelas do Rio. Uma década depois do filme, o documentário faz um balanço do que aconteceu nas vidas de 30 destes atores.

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Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund, foi um marco do cinema brasileiro. Participou do Festival de Cannes, foi indicado a quatro Oscar e tornou-se referência, além de alvo de admirações e mesmo imitações, em seu retrato de uma realidade social explosiva alimentada por um caldeirão de desigualdade e violência.
 
O documentário Cidade de Deus – 10 anos depois, de Cavi Borges e Luciano Vidigal, revisita o impacto do filme sobre a vida de 30 de seus atores, que seguiram destinos muito diferentes a partir de sua participação nele.
Mesmo com um fio narrativo simples, o documentário não banaliza a complexidade de seu tema, respeitando as diferenças da trajetória de seus personagens – alguns dos quais caíram no crime, ou desapareceram. Há respeito por figuras como Rubens Sabino, que se envolveu em roubo depois do filme e ainda sonha com uma carreira musical amparado por Seu Jorge - este o caso de maior sucesso desde o filme, tornando-se não só ator de vários longas como cantor de sucesso internacional.
 
Seu Jorge, aliás, participa de algumas das cenas mais significativas do filme. Uma delas retrata seu encontro, num hotel cinco estrelas, com Felipe Paulino – que fazia um dos meninos que recebem tiros nos pés do malvado Zé Pequeno (Leandro Firmino). Felipe agora trabalha como mensageiro neste hotel, longe da atuação, que ele confessa ter abandonado, não por falta de convites, mas por considerar-se explorado pela ambição do pai (que nega isso).
 
Em outra fala, Seu Jorge manifesta pessimismo pelo progresso dos negros no Brasil: “Não houve nenhuma melhora na situação do negro aqui”. O destino de boa parte dos atores de Cidade de Deus, que em sua maioria ganharam cachês modestos na época da produção, parece dar-lhe razão.
 
Nem por isso, o discurso do filme é piedoso. Ao contrário, os diretores contrastam diversas visões, que ampliam o foco da discussão sobre o dia seguinte a um sucesso desta dimensão. As reflexões dos atores, hoje mais maduros, são bastante matizadas. Alexandre Rodrigues, o Buscapé, lembra do “choque cultural” da ida de alguns deles, moradores de favelas, ao Festival de Cannes. Jonathan Haagensen, o “Cabeleira”, salienta sua preocupação em “sair do filme e construir uma carreira”. Apesar do sucesso na televisão, Roberta Rodrigues, a Berenice, lamenta, com bastante lucidez, que ainda não haja tantos atores negros nessa mídia.
 
Ironicamente, uma atriz que fazia um pequeníssimo papel, mas teve a sorte de sua foto ilustrar o cartaz principal, Alice Braga, teve a partir do filme sua grande chance. Com ele, conseguiu uma agente nos EUA, que lhe obteve um teste para a aventura Eu sou a lenda, ao lado de Will Smith, que por sua vez abriu caminho para uma promissora carreira internacional. Uma história de sucesso que parece enredo de um filme e contrasta com a realidade e as esperanças modestas de Renato de Souza, o “Marreco”, hoje mecânico de automóveis, mas ainda sonhando em voltar à atuação.
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