Com sua difusa melancolia, acentuada por uma trilha musical mais do que apropriada (de Jose Luis Castineira de Diós) o filme de Javier Torre humaniza o grande artista, transformando-o num personagem que caberia num tango. O enredo recria um episódio real da vida de Borges. Aos 46 anos, bem antes da consagração e do prêmio Nobel, o escritor vive de um cargo burocrático na Biblioteca de Buenos Aires e mora com a mãe viúva, dona Leonor (Inde Ledesma) - uma figura ao mesmo tempo cooperativa, que ajuda o filho já em suas iniciais dificuldades com a visão, definitivamente perdida na década de 50, mas ao mesmo tempo revela-se uma implacável opressora de toda a vida amorosa de Borges.
Optando por não ocultar o lado edipiano e impotente do escritor, o diretor Torre criou polêmica na Argentina, o que, com certeza, repercutiu na carreira modesta do filme nas bilheterias locais - muito embora nenhum dos fatos mencionados pelo roteiro seja segredo. A maior parte do que se coloca na tela tem origem num livro da própria Estela Canto, Borges A Contraluz, e coincide com diversas biografias do escritor. É bom ressaltar que a franqueza deste retrato nunca se reveste de falta de respeito pela figura do escritor nem procura qualquer sensacionalismo. Ao contrário, é uma escolha que ilumina algumas das limitações humanas que Borges superou com genialidade e galhardia numa obra magnífica. Se o homem perdeu quase todas as suas batalhas amorosas, ganhou-as com certeza o escritor, um dos maiores de todos os tempos.
Feliz encontro entre cinema e literatura, a produção venceu três troféus no Festival de Gramado/2001: melhor filme latino, prêmio da crítica e melhor ator para Jean-Pierre Noher.
Cineweb-22/2/2002
