A impressionante memória e o carisma de seu protagonista são os grandes trunfos do documentário Iván, do cineasta paranaense Guto Pasko, que mergulha nas memórias de Iván Bojko, imigrante ucraniano radicado no Brasil desde 1948.
Personagem e cineasta conheceram-se em 2005, quando Guto realizou outro documentário centrado nesta cultura, Made in Ucrania. Na ocasião, Iván entregou ao diretor um diário que mantinha desde a infância, em que relatava a dramática sequência de invasões sofrida por sua terra, culminando na tentativa de destruição da identidade do país, oscilando entre a dominação soviética e a nazista, durante a II Guerra.
O diário, que foi traduzido, forneceu o mote deste projeto, que leva Iván de volta à sua terra, depois de 68 anos distante. Uma viagem de risco. Na época das filmagens, 2010, Iván já tinha 91 anos, conhecendo-se de antemão a alta dosagem das emoções que o esperavam, no cenário dos agudos sofrimentos de seu passado. Na juventude, para salvar a irmã do mesmo destino, Iván foi levado pelos nazistas para trabalhos forçados na Alemanha, num vagão de gado. Nunca mais tinha revisto a família, embora mantivesse com eles contatos telefônicos.
Desde o primeiro momento do filme, impressionam a lucidez e a memória de um homem já nonagenário, capaz de, tantas décadas depois, fazer previamente um pequeno mapa de sua aldeia natal, Konyukhy. O que o espera por lá é não menos impressionante. Encontra diversos sobreviventes de sua época, amigos, vizinhos, parentes, inclusive uma de suas duas irmãs. A velha igreja de sua aldeia, de mais de 400 anos, ainda está de pé – embora ele não consiga mais encontrar o túmulo de sua mãe. Apenas sua velha casa, construída por seu pai no final dos anos 1930, está desabando – mas ainda guarda inúmeras fotos nas paredes. Ali bem perto, um memorial lembra a execução de jovens nacionalistas ucranianos pelos soviéticos – destino, como diz Iván, que o esperava se voltasse, já que ele mesmo tinha sido um militante nacionalista ucraniano.
A trajetória de Iván evoca, inevitavelmente, não só as guerras nacionalistas recentes em seu país como a saga dos refugiados destes tempos atuais, fugindo de nações destroçadas, rompendo laços, recriando identidades em terras distantes. É de admirar, por isso, o notável apego do imigrante deste filme à sua cultura, falando fluentemente seu idioma e fabricando teimosamente as banduras, instrumentos musicais típicos de seu país.
A dosagem de lágrimas e emoção é, como se poderia esperar, muito grande – e talvez a montagem pudesse ter enxugado um pouco a duração de algumas sequências, em proveito de uma melhor síntese.
