O cineasta húngaro Béla Tarr anunciou que O Cavalo de Turim – que estreou no Festival de Berlim em 2011 – é seu último longa, e, curiosamente, um dos raros (se não o único) filme seu a estrear em circuito no Brasil. Mas, como dizem, antes tarde do que nunca. O filme é um belo representante da filmografia do diretor, que conta com obras como The Man From London e Sátántangó, ambos exibidos em festivais por aqui.
Codirigido por Ágnes Hranitzky, o filme começa contando um episódio da vida do filósofo Nietzsche, em Turim, em 1889, quando viu um cavalo sendo maltratado e tentou protegê-lo. Entrando num colapso emocional, o filósofo nunca mais se recuperou, e morreu pouco mais de 10 anos depois. Partindo dessa “lenda”, o filme imagina o destino do cavalo e seu dono, que pelas poucas falas não tem nada de italiano, mas de húngaro mesmo.
Com imagens num preto e branco de pouco contraste, planos longos, poucos diálogos e um vento insistente, O Cavalo de Turim concentra em si as preocupações formais e ideológicas da obra de Tarr, que o escreveu com seu colaborador habitual, o premiado escritor húngaro László Krasznahorkai.
Este é também um filme sobre o fim do mundo – ou o fim de um mundo – protagonizado por um pai (János Derzsi) e sua filha (Erika Bók). Acompanhamos seu cotidiano vazio numa casinha de tábua no meio do nada, seus trabalhos, sua alimentação. Mas tudo é mostrado de maneira paciente, sem pressa, num ritmo peculiar que nos obriga a imergir naquelas existências e nas ações dos personagens.
Se nas obras anteriores de Tarr algo de surreal, onírico trazia uma ruptura, aqui (apesar do elemento “fantasioso” do apocalipse) vemos o filme mais contido do cineasta. Essa contenção se dá, especialmente, pela repetição da trilha sonora de Mihaly Vig, que é estranha e misteriosa. O que significa a recusa do cavalo de comer, beber, trabalhar? Seria esse o fim do mundo? Ou apenas o começo do fim? Tarr não está interessado em elucidações. Sua busca metafísica e espiritual – assim como sua estética do minimalismo – remete a Bresson e Dreyer, mas é também através de sua investigação materialista, esmiuçando quase à exaustão o cotidiano do pai e da filha, que o cineasta ilumina cantos obscuros do nosso tempo.
