04/06/2026
Documentário

A paixão de JL

Em janeiro de 1990, o artista José Leonilson começou a registrar em fitas cassetes suas sensações, pensamentos, reflexões sobre seu tempo e sua vida. O registro é mantido por três anos, atravessando o período em que ele descobriu estar infectado pelo HIV.

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Em janeiro de 1990, o pintor, desenhista e escultor José Leonilson tinha 33 anos. Ali começou a gravar um diário, em fitas cassetes. Ao longo de três anos, até sua morte precoce, em 1993, ele manteve essas gravações, relatos íntimos de seus sentimentos, comentários sobre os acontecimentos e também sobre suas obras.
 
Esse emocionado diário fornece a espinha dorsal do documentário A paixão de JL, em que o diretor Carlos Nader transforma essa delicada massa sonora em moldura de imagens, letras, materiais de arquivo dos fatos ou filmes comentados (Leonilson era um dedicado cinéfilo) e também de sua obra singular, que misturava materiais como papeis, tecidos, bordados, plástico, metal.
 
É de subjetividade que se trata, o que está em correspondência estrita com trabalhos tão singulares e minimalistas como os de Leonilson. Mas uma subjetividade conectada com o mundo ao redor. Quando ele inicia seus registros, acaba de acontecer a primeira eleição direta para presidente encerrando 21 anos de ditadura no Brasil e deflagrando a era Collor. O muro de Berlim acaba de cair e uma revolta popular invade a praça Tianamen e sacode os alicerces do regime comunista chinês.
 
Tudo isso percorre os comentários do artista, assim como referências pop, caso de Madonna, seriados de televisão (Perdidos no Espaço, A família Dó-Ré-Mi), filmes como Paris, Texas, Relâmpago sobre Água e Asas do Desejo, de Wim Wenders, e Eduardo II, de Derek Jarman. Em tudo, Leonilson encontra referências consigo mesmo, com seus medos e especialmente com a própria sexualidade reprimida e cheia de culpa, sobretudo em relação aos pais – que ele teme ferir quando descobre que é HIV positivo, o que proporciona algumas de suas confissões mais sofridas.
 
A solidão e a incerteza amorosa são outra tônica da pessoa que emerge deste relato, atravessado pela eclosão e o medo da Aids – que leva o artista a comparar os homossexuais da época com os judeus na II Guerra Mundial. Nem tudo é desespero, no entanto. Leonilson pulsa de esperança em novos encontros, na perspectiva de benefício pelo medicamento AZT e numa religiosidade difusa, em que se adivinham as raízes familiares.
 
Por tudo que compartilha, o filme trará uma perspectiva a mais para aqueles familiarizados com a obra de Leonilson – a humana. Ao resgatar seus altos e baixos emocionais, que ele traduz em seus trabalhos – que, no auge da doença, tornaram-se seu porto mais seguro -, pode-se ler seus depoimentos como um making of não só de sua arte, como de sua curta, intensa vida, bem como de um tempo não tão distante de nós, em que a histeria por conta de um vírus gerou toda espécie de incompreensão e preconceito.
 
A própria fragilidade deste suporte do diário – as fitas cassetes – também leva a pensar em outro curioso paralelismo, o da efemeridade dos materiais usados por Leonilson em sua obra. O filme serve, então, até para ampliar a vida daqueles seus peculiares tecidos bordados, camisas, vestidos, papeis, escritos, em que ele multiplicou as filigranas de uma sensibilidade atormentada e fúlgida.
 
O documentário venceu dois prêmios no Festival É Tudo Verdade 2015 – melhor filme da competição brasileira e melhor filme para a crítica (prêmio da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema).
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