19/07/2026
Documentário

O Botão de Pérola

Formando um díptico com "Nostalgia de Luz", também de Patricio Guzmán, esse documentário investiga a história do Chile por meio da fronteira do país com o oceano, no seu extremo oeste. No Sesc Digital (até 28/8/2024)

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Se a luz tem nostalgia, a água tem memória. É dessa ideia que o chileno Patrício Guzmán parte na construção do documentário O Botão de Pérola, que forma um díptico com seu filme anterior, Nostalgia da Luz (2010). Ganhador do prêmio de roteiro e do júri ecumênico no Festival de Berlim de 2015, o longa resgata a história de seu país a partir de sua maior fronteira com a água, que chega a quase 6,5 mil quilômetros.
 
Seguindo a mesma estrutura do filme anterior, aqui Guzmán começa com uma investigação metafísica, quase onírica, de linguagem poética combinando história e ciências naturais. Mas não se engane: o interesse do documentarista sempre foi e será a história sangrenta dos anos da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), e isso irá se materializar na segunda parte do longa.
 
Quando Guzmán se pergunta por que o Chile nunca capitalizou em cima de suas fronteiras marítimas, a resposta vem exatamente de seu passado colonial, e é aí que o documentário começa sua história de genocídio e exploração. As cinco etnias nativas que viviam espalhadas nas fronteiras foram dizimadas por fazendeiros e missionários. Combinando depoimentos de descendentes com as fotografias do padre e etnólogo alemão Martin Gusinde, o documentário resgata esse tempo que irá encontrar um encerramento simbólico na figura de Jemmy Button, que no século XVII foi levado para a Inglaterra, europeizado, e quando voltou para o Chile não se encontrou mais como nativo, mas também não podia ser inglês.
 
Mas o assunto é mesmo a água, a mesma que trouxe os colonizadores e levou Jemmy Button e se tornou o túmulo de presos políticos – assim como o deserto do Atacama em Nostalgia da Luz. Aos poucos, Guzmán, que no currículo tem a trilogia monumental A Batalha do Chile (1975-1979), entra na história sangrenta do país, criando-se assim um diálogo entre o etéreo (a partir de suas divagações sobre a água) com imagens poderosas de geleiras, entre outras coisas, e o material histórico (a ditadura militar no país).
 
O resultado transita entre o belo das imagens unidas à poesia do texto narrado pelo próprio diretor e a crueldade dos anos de chumbo chilenos – quando os corpos das vítimas dos militares eram jogados no oceanos presos a um pedaço de trilho de trem para que afundassem e não emergissem mais. Em O Botão de Pérola, Guzmán faz um documentário metafísico e histórico cuja força está tanto em sua beleza quanto em seu comentário político.
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