Paulina (Dolores Fonzi) é uma personagem intrigante, que desafia expectativas desde o momento em que, mesmo sendo uma advogada com brilhante futuro pela frente, decide largar tudo para lecionar Fundamentos da Democracia para uma população carente, numa escola desprovida, numa região na fronteira da Argentina com o Paraguai - jogando para o alto a possibilidade de uma carreira bem-sucedida como advogada, tendo como apoio um pai juiz, Fernando (Oscar Martínez). Enfrentar o pai, aliás, parece ser um de seus únicos motores na vida.
A partir desta opção, Paulina torna-se cada vez mais impenetrável. Abandona tudo para este mergulho numa realidade que, desde o início, a rejeita. Seus alunos, jovens de escolaridade precária, não compreendem seu vocabulário nem empatizam com seus esforços. E alguns deles, finalmente, participam do evento dramático que tem o poder de mudar tudo, seu estupro.
A cena é mostrada, em diferentes momentos do filme, de dois pontos de vista: o de Paulina, que voltava de bicicleta ao seu alojamento, depois de beber um vinho com a colega Laura; e o dos estupradores e seus cúmplices. Há diferenças sociais, de classe e, certamente, a evidência de que o que atualmente se chama de “cultura do estupro” é patologia que desafia fronteiras. Esse padrão de violência misógina, naquele desvalido pedaço do mundo retratado no filme, é patente. O estuprador principal, Ciro, é homem que levou um fora da noiva e se achou no direito de extravasar seu ódio e frustração. E a própria diferença cultural e social de Paulina é um catalisador dessa raiva que culmina no estupro.
Até aí, Paulina – que é uma refilmagem de La Patota, de Daniel Tinayre (1961) – parece estar de posse de algum controle de sua narrativa. Mas vai adiante no que parece ser um rudimento de tese, um experimento estético levado além do que seria razoável, a ponto de perder-se inteiramente. O diretor, o argentino Santiago Mitre, roteirista de filmes como Abutres e Elefante Branco, de Pablo Trapero, parece estar mais focado numa busca de originalidade de sua proposta cinematográfica – que nunca se traduz numa originalidade do ponto de vista visual -, criando uma personagem inescrutável, que se isola de tudo e de todos em nome de uma liberdade que, afinal, parece ter parentesco com a insanidade.
Ao rejeitar o aborto, Paulina desperta não empatia, mas constrangimento, perplexidade, revolta até, das mulheres do filme e fora dele. Parece louca, determinada a contrariar o pai, o ex-namorado, a lógica, de um modo que permanece obscuro. E isso por quê? Para quê?
Ao não criar nenhum espaço para esta compreensão e empatia por sua protagonista, Paulina perde a chance de discutir aquilo que parecia propor. Não só o estupro, mas também a forma como a justiça é exercida, de maneira seletiva de acordo com a classe social. Como ferramenta para uma urgente discussão da citada “cultura do estupro”, o filme se mostra ineficaz, mesmo vazio, ao não encontrar para sua protagonista uma verdadeira expressão de humanidade. No filme de 1961, a justificativa da personagem contra o aborto era religiosa. E aqui, afrontar o pai? Desafiar as convenções? Ou entrar numa negação neurótica do próprio abuso? Em todo caso, nada que o filme sustente a contento, apesar dos prêmios na Semana da Crítica e da Fipresci, em Cannes 2015.
