07/06/2026
Drama

Mercuriales

Duas moças, Joane e Lisa, tornam-se amigas depois de se conhecerem no trabalho, como recepcionistas no hotel Mercuriales, que fica em duas torres gêmeas na periferia de Paris. Num dia-a-dia rotineiro, as duas trocam confidências, saem e vivem como podem suas pequenas aventuras.

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Integrante da novíssima geração de cineastas franceses, Virgil Vernier estabelece um território indefinido entre ficção e documentário neste seu segundo longa, Mercuriales. Parte de referenciais realistas, como o título, que remete a duas torres gêmeas de hotéis, localizadas na periferia parisiense, na porte de Bagnolet. Mas, o tempo todo, semeia incertezas numa narrativa fragmentada, com clima onírico sustentado pela fotografia 16 mm, que segue vagamente as pistas de duas jovens amigas, a francesa Joane (Philippine Stindel) e a moldava Lisa (Ana Neborac).
 
As duas trabalham na recepção do hotel e dividem confidências nos intervalos de folga, quando fumam no terraço das torres – de onde se vislumbra uma cidade que parece tão vasta e indefinida quanto seus sentimentos. A geografia urbana é importante como subtexto, que lembra continuamente o despojamento, a desindividualização destes cenários, em que os seres humanos parecem formigas desenraizadas e sem rumo certo.
 
As moças derrapam o tempo todo na banalidade de seus empregos, passatempos, vida em geral, como se nenhuma fantasia fosse sequer imaginada. Rompe esse semi-realismo o lado meio mágico de Lisa – que em seu quarto faz invocações misteriosas, como uma bruxa, e conversa com uma imensa coruja, saída do nada.
 
Outros personagens entram e saem de cena sem maiores choques – como o jovem segurança que, na primeira sequência, é apresentado aos bastidores que mantêm o funcionamento elétrico das torres, o que acentua um tempero de ficção científica com que a história igualmente flerta. Em outros momentos, o mesmo rapaz volta, mas como soldado, num lembrete das obsessões de segurança dos tempos modernos, citadas num letreiro inicial, que situa a história numa Europa atemporal e em tempo de guerra.
 
A falta de ênfase em qualquer aspecto é, ao mesmo tempo, a força e a fragilidade de Mercuriales – em que o espectador poderá perguntar-se, com justa razão, sobre o que está vendo. Percorrem estes fotogramas sensações de solidão, tédio, desorientação. As torres altas à margem da cidade também parecem não fazer sentido, revestidas de mitos ultrapassados em tempos de crise aguda do capitalismo que as ergueu, décadas atrás – de cujos sonhos de grandeza restaram vestígios de gosto duvidoso, como os nomes de divindades gregas dados aos seus inúmeros quartos.
 
A demolição de pequenos prédios residenciais suburbanos somam sinais a essa desorientação, a esse desmonte constante de referências, aos quais um casamento, o de Zouzou (Anabelle Langronne), oferece uma sutil resistência pessoal. Estas referências afetivas, como a amizade entre Lisa e Joane, sob a sombra de uma iminente separação, jogam em paralelo com este mundo em decomposição, em estado de vapor, nunca sólido. Neste sentido, a história, escrita por Vernier e Mariette Désert, entremeada de improvisações, revela-se um pequeno retrato destes tempos. Ao mesmo tempo, constitui um rito de aprendizado para um diretor que parece pretender-se um novo Godard, só que amoldado a tempos menos cultos e politizados.
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