5 de dezembro de 1976. O Corinthians enfrenta o Fluminense no Maracanã lotado, em partida válida pela semifinal do Campeonato Brasileiro. Dos mais de 140.000 torcedores presentes, mais da metade são corinthianos, que vieram de carro e avião, promovendo a famosa "invasão corinthiana". O documentário resgata os bastidores do episódio, com imagens de arquivo e entrevistas com torcedores e jogadores dos dois times.
- Por Neusa Barbosa
- 28/09/2016
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Há episódios, na história de qualquer clube, que se tornam épicos, independentemente de terem resultado em títulos. É o caso da famosa “invasão corinthiana” de 5 de dezembro de 1976, quando uma multidão de número indeterminado – fala-se em pelo menos 70.000, mas facilmente pode ser mais – de torcedores alvinegros ocupou o Rio de Janeiro para assistir à semifinal do Campeonato Brasileiro contra o Fluminense.
Não era um jogo qualquer e muitos incidentes tinham acendido os ânimos daquela que, não por acaso, se intitula Fiel. Era uma partida decisiva para chegar à final do campeonato, tendo de um lado um time forte, bem articulado, a “Máquina Tricolor” – que contratara, inclusive, o ex-ídolo corinthiano Rivellino -, e, de outro, um time aguerrido, cheio de vontade, sem nenhum craque tão reconhecido e que não só não tinha nenhum título brasileiro ainda como há 21 anos estava na fila do campeonato estadual.
Nesse quadro já naturalmente desigual, entrou em cena a provocação do então presidente do Fluminense, Francisco Horta, num programa de televisão – “Vocês não são a Fiel? Então provem!”. Rivellino, que conhecia bem os torcedores do ex-clube, foi logo avisando: “Não faça isso, presidente, eu conheço essa torcida, eles vão vir”. Vieram mesmo e foram ingrediente fundamental no resultado do jogo.
Esses detalhes saborosos, entrevistas com jogadores como o próprio Rivellino, além de outros que estavam em campo pelo Corinthians – Wladimir, Givanildo, Zé Maria, Geraldão e o goleiro Tobias -, ou pelo Fluminense (Carlos Alberto Torres), diversos “invasores”, torcedores do Flu, além de imagens inéditas dos corinthianos ocupando a via Dutra, a orla de Copacabana e outros pontos do Rio são elementos de peso do documentário 1976 – O Ano da Invasão Corinthiana. Muito equilibradamente, dirigido por um corinthiano (Ricardo Aidar) e um “pó-de-arroz” (Alexandre Boechat).
Além das imagens históricas, o filme se vale de um recurso muito inteligente, ao colocar numa Kombi na via Dutra integrantes daquela invasão, tendo como passageiro um dos heróis do jogo, o goleiro Tobias, que pegou dois pênaltis, um deles, cobrado pelo ex-capitão da seleção, Carlos Alberto Torres. Lembra-se que os corinthianos foram de todo jeito – carro, ônibus, carona, um até tentou ir a pé (mas seus pés cederam ao esforço em Barra Mansa, onde ele ganhou carona de um “mano” para chegar ao destino).
Naquele Maracanã antigo, imenso, 146.143 torcedores entraram (muitos ficaram de fora). A julgar pelo que se vê de camisas alvinegras nas imagens, sente-se que podia haver muito mais do que os 70.000 corinthianos estimados (há quem chute 90.000 e não parece absurdo). De todo modo, estavam lá, foram bem-recebidos pelos cariocas (eram tempos menos polarizados, pelo menos no futebol, embora ainda fosse uma ditadura) e fizeram a diferença para motivar seus jogadores. Alguns, como Geraldão, lembram a sensação incrível ao entrar no campo e olhar o tamanho daquela fervorosa multidão alvinegra nas arquibancadas.
Outros detalhes da batalha são lembrados – o fato de o Fluminense não ter treinado cobranças de pênalti, de tanta confiança que tinha em seu toque de bola, afinal, travado pela marcação e a chuva torrencial no segundo tempo; o Corinthians ter treinado muito esses pênaltis, o que foi decisivo para decidir um jogo que, no tempo regulamentar, terminara 1x1 (Pintinho abriu o placar para o Flu, mas Ruço empatou heroicamente, com um gol de malabarismo, antes do final do 1º tempo); e até um ritual de macumba, da qual participaram Geraldão, Basílio, um jornalista, o presidente Vicente Matheus e um pai-de-santo.
Se o Corinthians não venceu aquele Campeonato Brasileiro (o primeiro título brasileiro só viria em 1990), afinal, não tem a menor importância. Muito do que o Timão é hoje se traduziu e consolidou ali, naquele épico jogo de 1976. O resto é intriga dos “antis”.
