O documentário Todas as manhãs do mundo, de Lawrence Wahba, procura fazer, literalmente, com que a natureza fale com seu público. Não só alinha imagens belíssimas dos quatro cantos do mundo – deserto da Baja California, o Pantanal brasileiro, as florestas frias do Canadá, savanas africanas e recifes marinhos da Indonésia – como coloca vozes no Sol (Ailton Graça) e na Água (Letícia Sabatella).
Esta antropomorfização dos dois elementos que governam o desabrochar da natureza e seus ciclos intermitentes funciona especialmente para o público infantil. Certamente, foi pensando nisso que o recurso foi introduzido. Para outros públicos, no entanto, essa conversa constante da dupla poderá ser um pouco incômoda.
Compensa de sobra a beleza das imagens e a complexidade das relações que elas são capazes de comunicar em torno do equilíbrio das forças da natureza, em que a violência da cadeia alimentar nunca é gratuita – aliás, as cenas de caça não são especialmente gráficas. Dessa forma, pode-se avaliar os desafios dos salmões em sua jornada rio acima para reproduzir-se, ainda que, no final, vários deles terminem morrendo de exaustão ou servindo de refeição a ursos, que os aguardam pacientemente. E também valorizar as mútuas qualidades de leões e búfalos, que medem forças na savana da Zâmbia, ainda que algum dos últimos termine sendo capturado pelos primeiros. Ou os duelos de jacarés, aves e onças pintadas no Pantanal.
Nem só dessas lutas vive o filme, que contempla muito o simples cotidiano de macacos, aves e seres marinhos por seus habitats. É sobretudo um filme de admiração por essa notável natureza do planeta, ameaçada por seus habitantes supostamente racionais.
