15/06/2026
Drama

Clash

No dia seguinte à derrubada, pelos militares, do presidente eleito Mohammed Morsi, egípcios de diversas posições foram às ruas protestar. A polícia reprime violentamente, prendendo diversos manifestantes num caminhão-camburão. Ali dentro, um fotógrafo, um repórter, religiosos, opositores da Irmandade Muçulmana e uma família se amontoam.

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A importante seção paralela Un Certain Regard de Cannes 2016 deu a largada com o drama egípcio Clash, segundo longa de Mohamed Diab (de Cairo 678), um título vincado no realismo e na política. Embora se trate de uma ficção, mantém um clima documental, ao concentrar-se num dia de manifestações públicas, em julho de 2013, quando foi derrubado o presidente eleito, Mohammed Morsi, da Irmandade Islâmica.
 
A ação concentra-se quase inteiramente dentro de um caminhão-camburão, onde militares amontoam os presos nas manifestações. Ali dentro, acotovelam-se perigosamente adeptos e inimigos da Irmandade Islâmica, um jornalista, um fotógrafo, homens, mulheres e até uma criança. De seus conflitos entre si e com os soldados, seus guardiães, emerge um retrato que dá a dimensão do enorme impasse do Egito hoje.
 
De todo modo, o filme permite avaliar o amadurecimento do diretor de segunda viagem, aqui manipulando material altamente explosivo, com um tema assim candente de uma realidade ainda em mutação. Mas capta esse momento de caos com firmeza, criando um clima claustrofóbico nessa escolha de cenário praticamente único, com seus personagens amontoados numa zona de desconforto profundo e dependendo de negociações entre si até para ocupar o espaço exíguo.
 
As janelas são mínimas e as portas, quando se abrem, não liberam ninguém, servindo para jogar ali dentro mais um prisioneiro. Nada mais simbólico do dilema que o cineasta pretende traduzir, neste huis clos em que viajam tanto o medo e a intolerância quanto a esperança. 
 
Embora o diretor, ao apresentar do filme em Cannes, tenha manifestado a esperança de mostrá-lo em seu país, difícil acreditar que a ditadura militar que hoje domina o Egito com mão de ferro vá permitir isso. Cannes e as salas de cinema que o mostrarem em outros países devem ser sua tribuna diante do mundo.
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