Vencedor da competição brasileira do Festival É Tudo Verdade 2017, o trabalho do estreante gaúcho Tyrell Spencer é uma grata surpresa, um primor de consistência em rigor estético e conteúdo.
Retrata a situação de quatro locais anteriormente prósperos, hoje abandonados: Huberstone (Chile), uma região antigamente grande produtora de salitre e densamente povoada; Fordlândia (Brasil), que viveu sua ascensão e queda com o ciclo da borracha; Armero (Colômbia), cidade devastada pela erupção, há 32 anos, do vulcão Nevado del Ruiz; e Epecuén (Argentina), uma estação de águas muito popular que sofreu uma inundação destruidora depois da quebra de uma barragem.
Com muita segurança, Spencer é capaz de evocar as memórias de sobreviventes de cada uma das situações, colocadas em paralelo com imagens atuais e de arquivo, que permitem que se tenha um quadro claro de cada uma – e que, apesar de compartilharem a mesma sorte, decorrem de fenômenos muito diferentes.
Por essa eficiência no jogo de imagens, a narrativa é capaz de colocar seu espectador no centro dos acontecimentos de cada lugar, compartilhando as emoções evocadas pelas paisagens desoladas, ruínas e relatos em primeira pessoa. O ritmo é garantido por uma montagem que dá conta de manter o sentido do que se está contando, ao mesmo tempo que comparando passado e presente.
Dessa fricção entre tempos distintos, entre opulência e abandono, o filme extrai o seu sentido mais precioso, que fica com o espectador muito tempo: a sensação de fragilidade dos destinos humanos em confronto com as forças da economia, do poder e da natureza. Uma estreia sólida e promissora do novo documentarista, nascido sob as asas da Casa de Cinema de Porto Alegre, produtora do filme.
