Naquele tempo, Salvador respirava cinema e, especialmente, Glauber Rocha. Conta Caetano, em depoimento à revista Bondinho: "Só andava com gente de cinema e ficava fascinado com aquela vitalidade com que Glauber vinha arrasando tudo". Apenas quatro anos mais velho do que Caetano e ainda se preparando para dirigir seu primeiro longa-metragem, Glauber era, no dizer do compositor, "uma pessoa mítica". Armava polêmicas em palestras e artigos de jornais, editava o caderno cultural do jornal Diário de Notícias -onde o próprio Caetano se tornaria brevemente crítico de cinema, de filmes como Barravento e A Grande Feira, de Roberto Pires.
Depois da crítica, viriam suas participações como ator e especialmente compositor de músicas que freqüentam as trilhas de mais de trinta filmes nacionais, Tieta do Agreste (1996) e Orfeu (1999) entre os mais recentes. Assistindo a entrevistas na televisão, o compositor teve a idéia de como passar para trás das câmeras, seu sonho antigo: fazer um filme em que pessoas contassem histórias, fazendo da palavra a matéria-prima, costurando as imagens, uma homenagem ao estilo de uma de suas admirações confessas, a obra do diretor Jean-Luc Godard. Chamou artistas, conhecidos, amigos, que falam de tudo e recitam trechos literários, num clima de conversa em família por terem sido filmados em longos planos, na sala da casa de Caetano, no Rio de Janeiro.
