18/07/2026
Comédia

8 Mulheres e Meia

post-ex_7
Criando, como sempre, um universo delimitado por fartas referências à pintura, literatura e ao próprio cinema, Peter Greenaway deixa a pista direta de uma homenagem desde o título, ou seja, Oito e Meio (63), de Federico Fellini. Justa homenagem, é bom que se diga, mas com uma ironia britânica que assinala a autoria do diretor galês.

Se comparado a filmes anteriores, como Afogando em Números (88), O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e o Amante (89) e mesmo o recente O Livro de Cabeceira (95), pode-se enxergar aqui uma obra de mais fácil apreensão. Afinal, há uma história para se acompanhar que independe até dos habituais exercícios de estilo do cineasta - em que pese que a cópia brasileira do filme, com as cores bem lavadas, não faça jus à sempre indiscutível qualidade técnica das obras de Greenaway, um perfeccionista obcecado pela tecnologia e pela técnica que nunca esconde sua formação como pintor e cenógrafo.

O enredo acompanha as aventuras de um pai, o milionário Philip Emmenthal (John Standing) e seu filho, Storey (Matthew Delamere), logo depois da morte da mulher do primeiro. Por influência do filho, o magnata na meia-idade enfrenta a depressão e redescobre o desejo, lotando os aposentos de seu luxuoso castelo em Genebra de vários tipos de mulheres. Assim, vivem ali uma gueixa (Kirina Mano), uma executiva (Vivian Wu), uma maluquinha viciada em jogo (Annie Shizuka Inoh), uma ex-freira (Toni Collette, de O Sexto Sentido), uma amazona que tem uma porca de estimação (Amanda Plummer) e uma belíssima prostituta (Polly Walker).

Esse aglomerado de fantasias sexuais deixa clara a inspiração no filme de Fellini, que é, aliás, citado nominalmente pelos dois protagonistas. Embora sejam fantasias masculinas, não se espere, porém, um mero desfile de obsessões porco-chauvinistas. Greenaway é elegante demais para isso e optou pela trilha do humor, por mais que este seja um tanto contido do ponto de vista de um público latino, como o brasileiro.

Melhor ainda, esse humor segue uma via de duas mãos. As mulheres reagem com uma sadia malandragem para colocar seus próprios termos em cena. Isto alimenta o ritmo do filme, tornando a atmosfera mais relaxada do que em obras anteriores do diretor. Aos 59 anos, Greenaway parece ter chegado à conclusão de que a maturidade é um bom momento para exercitar o cinismo.

post