06/06/2026
Drama

Colo

Diante da crise financeira de Portugal e das políticas de austeridade, uma família começa a se dissolver. A mãe tem vários empregos para manter a casa, o pai está desempregado e deprimido, e a filha de 17 anos não consegue se conectar com eles.

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O português Colo, de Teresa Villaverde, talvez seja uma espécie de primo melancólico do seu conterrâneo As mil e uma noites, de Miguel Gomes. A trilogia, com título inspirado nos contos árabes, recorria a um toque lúdico e até à fantasia quando a realidade se tornava penosa demais. Já este outro filme não abre mão de seu realismo social, mergulhando cada vez mais numa espécie de depressão dos personagens diante da incontornável situação de seu país.
 
Colo investiga a dissolução de uma família diante da ascensão do neoliberalismo e da austeridade em Portugal. É como se a razão neoliberal invadisse os laços de afeto e as dinâmicas familiares, tingindo-as com sua perversidade e egoísmo, isolando cada um dos personagens em seus mundos – o maior problema (talvez para o filme também) é que esses mundos não são nada convidativos.
 
Teresa – que já ganhou prêmios em Veneza, e competiu em Cannes e Berlim (nesse festival com Colo) – não está interessada em mediações fáceis para seu público. Assim, o resultado é um filme árduo, de mais de duas horas, sobre uma realidade sombria. A questão é como não alienar seu público (mesmo alienando os personagens)? Mas nisso ela também não está interessada e não faz concessões. O resultado é um filme difícil mas repleto de honestidade. É preciso respirar fundo antes de entrar nele.
 
A família de protagonistas mora nos arredores de Lisboa, num conjunto habitacional de predinhos padronizados, com apartamentos pequenos e iguais – e ninguém conhece ninguém, a não ser aqueles que habitam sob o mesmo teto. Marta (Alice Albergaria Borges) é a filha de 17 anos, solitária que prefere vaguear pela praia a passar tempo com os pais. O pai (João Pedro Vaz) está desempregado e também tem pouco interesse na família. A mãe (Beatriz Batarda), por sua vez, não tem tempo para nada, ocupada com diversos empregos para pagar as contas.
 
A partir desse trio de personagens, Teresa, que também assina o roteiro, constrói uma narrativa fragmentada, cujos estilhaços parecem captar os pedaços de relacionamentos que outrora existiram entre os membros dessa família. O filme acompanha a erosão da estrutura que os une. A mãe é quase uma presença fantasmagórica na dinâmica da casa – passa mais tempo fora em seus empregos do que ali. Marta e o pai embarcam em jornadas distintas e isoladas em busca de seu lugar no mundo diante da nova realidade cada vez mais angustiante. Ele tenta esquemas de enriquecimento fácil fadados ao fracasso – só ele não percebe isso. A jovem divide seu tempo entre a paixão que descobre ter por aves, shows da banda do seu namorado ou com a amiga Julia (Clara Jost), que se descobre grávida.
 
Não se mostra interesse em compreender essas figuras humanas, mas, sim, em esmiuçar os efeitos de uma estrutura maior, de austeridade e recessão na vida delas. Dessa forma, os personagens são observados de maneira rigorosa. Eles não falam muito, e o silêncio toma conta das cenas. O resultado é um longa silencioso no qual a ausência de palavras é que tem algo a dizer.
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