Neste documentário, que marca sua estreia em longas, Daniel Nolasco revisita a região onde passou a infância, no sul de Goiás, para reconstituir um modo de vida em transformação.
Na década de 1970, a paisagem local era constituída de pequenas fazendas voltadas para a agricultura de subsistência. Dez anos depois, chega a soja, cujo cultivo leva à compra de terras por latifundiários, proporcionando um êxodo de parte da população para cidades como Catalão, Paulistas e Soledade.
A década de 1990 intensifica essa implantação de um modelo de agricultura de grande porte, voltada à exportação, ao lado da criação de gado. Como reforço às mudanças, constrói-se uma hidrelétrica para atender às necessidades crescentes de energia.
Todo esse processo é acompanhado de um esvaziamento praticamente total de jovens nas redondezas, que se deslocaram para as zonas urbanas. Somente em períodos de férias é que eles retornam à região, em visita aos familiares que restaram.
Através de personagens como os irmãos Samuel, Vinicius e Rafael, o documentário retrata uma parcela deste que é o nosso Velho Oeste, uma região ocupada por bois, barragens e armas – cuja presença é assinalada no cotidiano, inclusive dos rapazes que voltam, distraindo-se com a caça ou simplesmente tiro ao alvo, para matar o tempo que sobra.
Funcionando como uma espécie de câmera invisível que se mistura ao ambiente – fato facilitado pelo diretor conhecer o lugar e seus personagens -, sem entrevistas, o documentário proporciona um registro desta inadequação dos jovens de fora, que trazem suas motos e celulares e parecem reagir instintivamente a uma certa brutalidade inerente ao meio. Há festas, baladas, motocross, derrubada de árvores com motosserra e tiro ao alvo numa espécie de tempo suspenso em que parece predominar simplesmente a ansiedade de partir.
