20/07/2026
Documentário

A vida extra-ordinária de Tarso de Castro

Tarso de Castro foi um dos criadores do Pasquim e um dos jornalistas mais importantes do Brasil. Ao resgatar sua trajetória, o documentário faz um mergulho saudosista nos turbulentos anos 1960 a 1980, de censura braba, mas muita resistência.

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Não há como ficar indiferente a Tarso de Castro, o jornalista irrequieto, que se apaixonou por muitas mulheres e colecionou amigos e inimigos por toda a vida. Breve vida. Morto em 1991, aos 49 anos, deixou, no entanto, sua marca no que de melhor foi produzido pela imprensa brasileira entre os anos 60 e 80.
 
Fala-se muito do Pasquim, semanário carioca que revigorou a linguagem jornalística e driblou a censura do regime militar com muito humor, mas nem sempre é lembrado que por trás do sucesso do hebdomadário (como era chamado pelos seus integrantes) estava Tarso de Castro, provocador, presença constante nas longas entrevistas da patota, nas dicas culturais ou nas esculhambações gerais.
 
Foi namorado da atriz Candice Bergen e o feito foi celebrado como motivo de orgulho nacional. Machismo à parte - e foi um período muito machista aquele dos anos 60 (só para constar, o Pasquim não poupava as feministas, principalmente a americana Betty Friedan, e Ziraldo se gabava de nunca ter brochado). Também para constar, o Pasquim também merece um bom documentário, aproveitando que alguns de seus fundadores, ao contrário de Tarso, sobreviveram à maratona de excessos daquele período.

O documentário, dirigido por Leo Garcia e Zeca Brito, acompanha a trajetória do jovem talentoso de Passo Fundo (RS), filho de dono de jornal, que tomou gosto pela profissão ainda menino. Sua grande característica era a de criar os próprios jornais onde escrevia ou participar de projetos gráficos inovadores, onde editava e escrevia.No primeiro caso, O Pasquim; no segundo, o suplemento Folhetim, encartado nas edições dominicais da Folha de S. Paulo, e o melhor caderno cultural dos anos 80 da imprensa paulista.

Com entrevistas saborosas, a dupla de diretores ouve antigos companheiros de redação de Tarso, como o cartunista Jaguar, Sérgio Cabral, Luiz Carlos Maciel, e ex-mulheres, que recordam seu poder de sedução. Nessas conversas emerge a figura de Tarso, sempre polêmica. Há quem lembre que os inimigos o consideravam mau caráter, mas em sua maioria os entrevistados o absolvem.

Hoje não há espaço no jornalismo cultural para o surgimento de profissionais como Tarso de Castro. Ninguém conseguiria escrever com a liberdade que ele escrevia, ninguém conseguiria se manter independente como ele se mantinha. Mas eram outros tempos. Mesmo com censura pesada, havia uma forte resistência intelectual e uma malandragem refinada para furá-la.

Mas Tarso deixou seu legado: João Vicente, seu filho com a estilista Gilda Midani, que integra o grupo Porta dos Fundos. Ele perdeu o pai ainda criança e guarda de recordação, como um talismã, a carteira que Tarso levava diariamente no bolso, recheada de anotações em pedaços de papel, a foto do filho e nenhum dinheiro.

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