A cena também deixa claro, logo de início, a insistente opção de Godard em romper com o cinema clássico, usando para isso alternância cromática na luz do ambiente. A personagem de Bardot pergunta a opinião do companheiro sobre cada parte de seu corpo, enquanto é iluminada por uma luz vermelha que se torna azul quando o foco de curiosidade é seu rosto.Outro momento em que a estrutura cinematográfica fica evidente é durante a apresentação de uma cantora, na qual a música é cortada a cada vez que os personagens conversam.
Camille é uma datilógrafa casada com Paul Javal (Piccoli), um escritor contratado pelo produtor americano Jeremy Prokosch (Jack Palance) para tornar comercial a adaptação cinematográfica de A Odisséia, de Homero, já parcialmente filmada por Fritz Lang (interpretando a si próprio). O visível interesse do produtor por Camille não parece incomodar Javal, que ainda aconselha-a a aceitar carona do pretendente enquanto ele vai de táxi ao encontro dos dois. Isso aborrece por demais Camille, que dá início a uma verdadeira guerra de nervos com o marido. Ao longo do filme, os personagens vão se desgastando cada vez mais e seguem a linha dos casais de Godard, sempre tomados por incertezas e cercados por discussões envolvendo dinheiro.
Há um paralelo entre as relações de Camille e Paul e os mitológicos Minerva e Ulisses, explicado mais claramente pela versão do roteirista para A Odisséia. A identificação é escancarada na mais longa das brigas do casal, em seu belo apartamento, onde ambos aparecem enrolados em enormes toalhas, dispostas como as vestimentas gregas.
A outra batalha é travada entre Prokosch e Lang em torno do filme. A figura do produtor é constantemente ironizada, por exemplo, através da garota-capacho que traduz para o francês cada uma das palavras que ele diz e que, em um dado momento, também serve de mesa para que ele assine um cheque. Nessa seqüência, o produtor diz que não pode ouvir a palavra cultura que prontamente saca o talão de cheques, pouco depois de um xilique onde arremessa ao chão por várias vezes algumas latas de filme.
Tanto a relação do casal como a do produtor e do diretor tendem para um recorrente tema godardiano, a prostituição. Essa é a metáfora usada pelo diretor para as relações contemporâneas, sejam humanas ou econômicas. Outras sutilezas godardianas, como os créditos falados ou o chapéu e charuto de Javal, parodiando Deus Sabe o Quanto Amei, ou ainda as maneiras diferentes como Javal passa pela porta, fazem de O Desprezo um clássico imperdível.
Cineweb-4/4/2003
