18/07/2026
Drama

O Desprezo

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Uma das mais famosas cenas do cinema francês é sem dúvida o plano-seqüência que abre O Desprezo, filme de Jean-Luc Godard, de 1963, inpirado no romance homônimo do italiano Alberto Moravia. Durante cerca de 3 minutos, a câmera passeia pelas generosas curvas de Brigitte Bardot, nua, deitada ao lado de Michel Piccoli. Não são poucos os momentos em que Bardot exibe seu belo corpo, recurso usado como ironia às produções cinematográficas da época, como bem observa o personagem de Piccoli: "Quando vejo as mulheres normais elas estão vestidas, mas quando vão para o cinema aparecem sempre nuas".

A cena também deixa claro, logo de início, a insistente opção de Godard em romper com o cinema clássico, usando para isso alternância cromática na luz do ambiente. A personagem de Bardot pergunta a opinião do companheiro sobre cada parte de seu corpo, enquanto é iluminada por uma luz vermelha que se torna azul quando o foco de curiosidade é seu rosto.Outro momento em que a estrutura cinematográfica fica evidente é durante a apresentação de uma cantora, na qual a música é cortada a cada vez que os personagens conversam.

Camille é uma datilógrafa casada com Paul Javal (Piccoli), um escritor contratado pelo produtor americano Jeremy Prokosch (Jack Palance) para tornar comercial a adaptação cinematográfica de A Odisséia, de Homero, já parcialmente filmada por Fritz Lang (interpretando a si próprio). O visível interesse do produtor por Camille não parece incomodar Javal, que ainda aconselha-a a aceitar carona do pretendente enquanto ele vai de táxi ao encontro dos dois. Isso aborrece por demais Camille, que dá início a uma verdadeira guerra de nervos com o marido. Ao longo do filme, os personagens vão se desgastando cada vez mais e seguem a linha dos casais de Godard, sempre tomados por incertezas e cercados por discussões envolvendo dinheiro.

Há um paralelo entre as relações de Camille e Paul e os mitológicos Minerva e Ulisses, explicado mais claramente pela versão do roteirista para A Odisséia. A identificação é escancarada na mais longa das brigas do casal, em seu belo apartamento, onde ambos aparecem enrolados em enormes toalhas, dispostas como as vestimentas gregas.

A outra batalha é travada entre Prokosch e Lang em torno do filme. A figura do produtor é constantemente ironizada, por exemplo, através da garota-capacho que traduz para o francês cada uma das palavras que ele diz e que, em um dado momento, também serve de mesa para que ele assine um cheque. Nessa seqüência, o produtor diz que não pode ouvir a palavra cultura que prontamente saca o talão de cheques, pouco depois de um xilique onde arremessa ao chão por várias vezes algumas latas de filme.

Tanto a relação do casal como a do produtor e do diretor tendem para um recorrente tema godardiano, a prostituição. Essa é a metáfora usada pelo diretor para as relações contemporâneas, sejam humanas ou econômicas. Outras sutilezas godardianas, como os créditos falados ou o chapéu e charuto de Javal, parodiando Deus Sabe o Quanto Amei, ou ainda as maneiras diferentes como Javal passa pela porta, fazem de O Desprezo um clássico imperdível.

Cineweb-4/4/2003

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