Segredos familiares, reconciliações e muita comida, tudo isso entra na receita do melodrama Lámen shop, dirigido pelo veterano Eric Khoo. Mais conhecido cineasta de Singapura, que concorreu à Palma de Ouro em Cannes em 2008 com o drama My Magic, ele estrutura sua narrativa em torno do jovem Masato (Takumi Saitoh) e sua busca das raízes familiares, entre o Japão e Cingapura.
Filho de um chef japonês, Kazuo (Tsuyoshi Ihara), e uma cingapurense, Mei Lian (Jeanette Aw), o menino nasceu em Singapura e ali viveu até os 10 anos. Depois, a família foi viver no Japão, onde a mãe morreu ainda jovem. Desde a morte da amada, Kazuo vive atormentado e tem uma relação distante com o filho, que é seu auxiliar num pequeno restaurante.
Quando Kazuo também morre, Masato decide que é hora de voltar a Singapura, à procura de seus familiares, cujo negócio, igualmente, está na comida. Boa parte do tempo do filme, aliás, passa-se em torno de mesas, do fogão ou da cozinha, locais onde o jovem Masato procura unir novos e velhos sabores, assim como ordenar lembranças de infância e resolver lacunas do passado.
Há questões não-resolvidas desde a partida da família de Singapura, como a não-aceitação do casamento de Kazuo e Mei Lian pela mãe dela, por conta dos rancores da II Guerra Mundial. O Japão imperial invadiu Singapura e ali foi responsável por muitas mortes, inclusive do avô de Mei Lian. Assim, até hoje, esta avó recusa-se a conhecer o próprio neto. Masato localiza, no entanto, seu bonachão tio materno (Mark Lee) e este não se nega a compartilhar com o sobrinho suas receitas especiais, como uma que ele procura em especial, o “bak kuh teh”, uma sopa de macarrão e costela de porco que é uma cara lembrança da cozinha de sua mãe.
Outra guia de Masato entre as duas culturas é uma blogueira de culinária, Miki (Seiko Matsuda), japonesa radicada em Singapura que o leva ao encontro de muitas delícias criadas num país que une influências chinesas e até indianas em seus pratos.
No fundo, é deste hibridismo cultural que a comida é capaz de compor, juntando pessoas diferentes para compartilhar seus sabores em torno de uma mesa, que o filme quer falar. E o faz elaborando uma festa para o olhar que atiça o apetite. É duro assisti-lo de estômago vazio. Sua estreia mundial, aliás, foi numa seção especial do Festival de Berlim, Cinema Culinário, em que o público, pagante, pode degustar as delícias vistas na tela após a sessão.
Despretensioso em termos cinematográficos, Lámen shop pode lembrar outros filmes orientais que exploraram a mesma temática, embora num outro estilo – caso da comédia Tampopo, de Juzo Itami (1985), e do drama Sabor da vida, de Naomi Kawase (2015).
