Neste documentário, o psicólogo Eduardo Passos coloca-se como o interlocutor de um longo e doloroso diálogo com o ex-policial e assassino a serviço da repressão política, Cláudio Guerra. Trata-se de uma longa conversa, uma verdadeira confissão, relembrando uma assustadora sucessão de mortes, torturas e desaparecimentos forçados, além da eliminação de cadáveres (alguns, queimados numa fornalha na propriedade particular de um empresário) testemunhadas ou executadas pelo protagonista na recente ditadura civil-militar de 1964-1985.
É o tipo do filme capaz de revelar – ou lembrar – o sinistro arsenal de violência a serviço do poder absoluto de que se valem regimes de exceção. Passos revela-se um arguto entrevistador mas a serenidade no tom dos participantes da conversa não ameniza a gravidade dos fatos que expõe. Sem dúvida, o grande enigma é Cláudio Guerra e sua disposição de falar tanto, sentindo-se talvez protegido por sua nova fase religiosa. De todo modo, é um filme poderoso e necessário a um esforço contra o esquecimento dos crimes da ditadura, de quem alguns insensatos dizem sentir-se saudosos.
