O documentário Excelentíssimos, de Douglas Duarte, coloca novamente em foco o pesadelo do impeachment da presidenta Dilma Rousseff e suas consequências.
Diretor de Personal Che (2007) e Sete Visitas (2015), Duarte viu-se colocado no epicentro deste furacão quando iniciava um documentário sobre o Congresso Nacional, em março de 2016. Contando com autorização para filmar do lado de dentro da instituição, embarcou nos acontecimentos que naquele momento sacudiam o país.
Filmando dentro deste centro de poder – assim como o recente O Processo, de Maria Augusta Ramos -, o cineasta mais uma vez coloca um espelho diante do comportamento destes representantes do povo, pró ou contra o impeachment, e as manobras de bastidores que o sustentaram.
Ainda que vários desses momentos sejam conhecidos, o documentário fornece uma espécie de linha do tempo, que começa na última aparição pública de Dilma, já deposta, recebendo flores na porta do Planalto e volta em flashback para as eleições de 2014, as manobras do candidato derrotado Aécio Neves para contestar o resultado daquela eleição e enfileira os discursos de líderes da oposição peessedebista para desestabilizar o governo, abrindo caminho à traição do MDB e ao posterior impeachment.
Como ocorreu em O Processo, é possível assistir a esses diversos capítulos de nossa mais recente tragédia institucional como um filme de terror, cujo final conhecemos – e nada mais sintomático dessa sensação do que a votação da admissão do impeachment, em 17 de abril de 2016, cujo televisionamento ao vivo permitiu ao povo brasileiro conhecer o comportamento de alguns dos mais folclóricos e abjetos representantes que por ele foram eleitos.
Além de fazer uso destas imagens – algumas públicas, divulgadas por internet, como informam os créditos finais –, o filme se vale de entrevistas próprias, algumas particularmente didáticas. É o caso de uma conversa com o deputado Carlos Marun (MDB), em que ele admite sem rodeios que “faria o impeachment independente do que se usasse como pretexto. “Se dissessem que Dilma roubou um picolé, eu faria o impeachment”, afirma ele candidamente. E também chama de “loucos” – ainda que não num sentido propriamente negativo, já que eram instrumentais ao impeachment – ao juiz Sérgio Moro e ao então presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha.
Essas e outras declarações, dispostas em ordem cronológica, culminam no que se poderia chamar de “dia seguinte” do impeachment. Excelentíssimos termina desmascarando a verdadeira natureza da administração Michel Temer, ao mostrar o envolvimento de seus principais artífices em escândalos de corrupção, a mesma que apontavam no governo que depuseram.
Por tudo isso, o documentário tem seu valor como memória, como reorganização daqueles episódios vividos em turbilhão, colocando em evidência personagens que assumiram faces supostamente reivindicativas, libertárias – como alguns movimentos de ocasião, que levaram às ruas alguns milhares de pessoas vestidas de verde e amarelo e que mostraram, depois, sua verdadeira face.
