Melhor longa da mostra Aurora do Festival de Tiradentes 2016, do diretor estreante Thiago B. Mendonça, Jovens Infelizes ou Um Homem que Grita não é um Urso que Dança é um filme que se propõe a desafiar sua possível plateia desde o título quilométrico. O que é uma proposta de risco, mas é esta a intenção declarada do cineasta, autor de curtas como A guerra dos gibis, Minami em Close Up: A Boca em revista e Piove, il Film di Pio.
Num filme de duas horas, os sinais de um cinema de guerrilha estão por toda a parte, desde o declarado orçamento minúsculo de R$ 40.000,00 (fruto de um edital de roteiro) e a fotografia em preto-e-branco, numa narrativa fragmentada que entrelaça as experiências de uma trupe teatral que vive em comunidade e os protestos nas ruas de São Paulo, em 2014, contra os gastos da Copa do Mundo.
A narrativa é organizada em “passagens”, de trás para a frente, começando pelo epílogo da sexta parte, um “cabaré dos mortos”. A experiência teatral impregna várias cenas, traduzindo a vivência do próprio diretor neste campo. Os temas se alternam, de um sequestro de governador, ao fechamento de um cabaré, discussões e sexo entre os atores, a incorporação de um padre à trupe, a exibição de trecho de Alma Corsária, de Carlos Reichenbach – homenageado nos créditos – uma fala do cineasta Andrea Tonacci, outro paradigma da liberdade de experimentação no cinema. É isto e bem mais, explorando temas de interesse do filme, como a realização de uma “arte revolucionária” diante de um quadro de desmoronamento das utopias – pelo menos, das utopias passadas, referenciadas em diversas imagens de movimentos e turbulências políticas do século XX. Não a utopia anarquista, no entanto, invocada ao longo do filme pela palavra de ordem: “Pra começar de novo, é preciso destruir”.
Despejando seu arsenal de referências e buscas, o filme torna-se caótico e nem sempre de uma maneira instigante e positiva. Falta uma articulação melhor dessas ideias e sentimentos nesse discurso, que fizesse melhor proveito das passagens mais interessantes. Afinal, em qualquer narrativa, o sentido do ritmo é importante, por mais que causar perplexidade e incômodo esteja entre as prerrogativas de um filme. Enfim, viva a liberdade de criar, de experimentar, mas uma versão mais enxuta de todo este turbilhão poderia tornar a viagem dos espectadores mais proveitosa.
