A presença fantasmagórica destes desaparecidos é materializada com um toque surreal, fantástico, que nunca encobre a tragédia de acontecimentos reais. O filme, que tem no elenco Enrique Díaz, Marleyda Soto e vários não atores da comunidade indígena da Ilha da Fantasia – incrível nome real de um bairro de Letícia, na Colômbia -, articula estas narrativas, dando conta da luta de refugiados de guerras e as necessidades de ajustes e reconciliação.
O enredo se estrutura em torno de Amparo (Marleyda Soto, de A Terra e a Sombra), mulher sozinha, deslocada de seu povoado, em busca de apoio e escola para seus filhos, Nuria (María Paula Tabares Peña) e Fabio (Adolfo Savilvino). A situação peculiar de seu marido, Adão (Enrique Díaz), somente visto no círculo familiar, vai-se esclarecendo sutilmente, através dos próprios movimentos de Amparo. Esta atmosfera mágica entra com naturalidade na história, constituindo um contraponto a uma realidade brutal.- no caso, a guerra contra o narcotráfico e as FARC, na Colômbia, que vitima preferencialmente as populações pobres.
A duras penas, Amparo consegue ajuda da avó (dona Albina) e trabalha no que encontra para sustentar os filhos, na comunidade da Ilha da Fantasia. As crianças, igualmente, são capturadas nesta trajetória de sombra e luz, em que a inocência da infância é confrontada pelo bullying e a cooptação para o crime. Por esse tom particular, o filme distingue-se dos dramas sociais brasileiros. Constroi sua particularidade com engenho semidocumental, que extrai sua energia deste dedicado elenco, quase todo amador, em locações reais.
A sequência final, de rara beleza, simboliza a busca de um novo equilíbrio, de uma nova ordem social que supere as tragédias e polarizações, sem esquecer de dar conta das necessidades fundamentais destes povos divididos por conflitos. Por incrível que pareça, o uso de cores fluorescentes visto nestas cenas são um toque retirado da realidade local.
