03/06/2026
Drama

Maya

Gabriel Dahan tem 30 anos e é repórrter de guerra. Recém-liberto depois de meses como refém de jihadistas na Síria, ele procura refazer sua vida. Tentando se recuperar, faz uma viagem à Índia, onde vive sua mãe, e conhece uma garota, Maya, filha de seu padrinho. Na Filmicca (a partir de 24/5).

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Talvez Maya não fosse a obra que se esperava da diretora francesa Mia Hansen-Løve depois de seu devastador O que está por vir. É tudo diferente, e por isso mesmo desconcertante, de certa maneira. Este é um filme, por assim dizer, menor em sua ambição, mas não pequeno em seu alcance. É um retrato sutil do mundo do presente e de suas consequências emocionais.
 
Os personagens dos filmes de Hansen-Løve enfrentam pequenos momentos que podem gerar grandes mudanças, como a professora de Isabelle Huppert em O que está por vir, em que ela descobre uma nova liberdade (e não sabe o que fazer com ela) quando o marido a abandona por uma mulher mais nova. Em Maya, o protagonista é Gabriel Dahan (Roman Kolinka), jovem repórter de guerra, que volta à França depois de ser refém na Síria. Ele reencontra a antiga namorada, médicos e um psicólogo, que o apoiará para retomar sua vida. Mas nada disso o ajuda mesmo. A saída é viajar para a Índia, onde tem uma casa, em Goa.
 
O deslocamento do personagem implica no deslocamentos dos referênciais da diretora – sempre, digamos, bem francesa em seus filmes. Aqui, o cenário e a língua (a maior parte dos diálogos são em inglês) implicam em adaptações, mas felizmente, nada disso afeta o cinema de Hansen-Løve. Sua investigação do descontentamento e das chances de mudança que a vida oferece segue intacta. Gabriel reencontra seu padrinho (Pathy Aiyar) e conhece a filha dele, Maya (Aarshi Banerjee), que um dia deverá ir para a Austrália estudar.
 
Como o filme se chama Maya sabemos, é claro, que a personagem terá um papel importante na trajetória de Gabriel, no exorcismo de seus fantasmas. Tudo acontece de forma orgânica, quase banal. O romance entre eles, sempre anunciado, se dá quando já nem lembrávamos disso. Kolinka e Banerjee, assim como seus personagens, são opostos em suas criações. Ele é contido, um tanto descrente do mundo (e novas notícias sobre o Oriente Médio o afetam ainda mais). Ela, por sua vez, é incendiária, mas de uma forma delicada, é a juventude explorando o mundo e pronta para aceitar novidades e descobertas.
 
Maya é um filme sobre viagens – Gabriel vai para a Índia, Maya vai para a Austrália. Mas mais do que as jornadas físicas – há um interlúdio belíssimo, em que o protagonista viaja de trem pela Índia – são aquelas de autodescoberta que contam mais. Ele se redescobre, ela se descobre pela primeira vez, e o resultado pode ser um filme menor de Hansen-Løve, mas, ainda assim, um grande filme.
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