Fernando é um filme bastante particular, único em seus propósitos e construção. Traz como figura-central e personagem-título o ator e educador Fernando Bohrer, que esteve em filmes como Ferrugem e A família Dionti, mas não é um artista bastante conhecido. O trio de diretores do longa, Paula Vilela, Julia Ariani e Igor Angelkorte, é capaz de tirar o máximo proveito disso, e o resultado é uma biografia que encontra sua força no casual.
Em cena, Fernando se abre à câmera sem nunca trazer uma exposição gratuita. Acompanhamos o seu dia-a-dia, seu trabalho, sua consulta a uma cardiologista, na qual é diagnosticado com um problema no coração. É uma mudança em sua vida, que o documentário registra sem grande alarde como tudo aqui: é só mais um elemento em sua vida, como todos os outros, sejam suas oficinas de teatro, seja nos palcos ou na cama conversando com seu companheiro – interpretado pelo bailarino Rubens Barbot.
O grande mérito do filme está em seu retrato afetivo, mas, ao mesmo tempo, distanciado de qualquer excesso laudatório. É uma celebração da vida e da arte, que encontra sua base formal em planos longos, em uma luz delicada e na inteligência e experiência de seu protagonista. O jogo de cena que Fernando estabelece é desafiador, pois se constrói de maneira tão despojada que a ficção parece não existir ali – mas existe, e é o que traz as camadas mais profundas do filme: há muito a linha entre ficção e documental se esvai, e o que sobra é o questionamento sobre o que é a construção da verdade – se é que essa é uma narrativa pura.
