Poucos filmes e cineastas reuniram em torno de si tantos mistérios e polêmicas como o diretor Mário Peixoto (1908-1992) e seu único trabalho concluído, Limite. Contando a história de três náufragos, num barco à deriva, com uma linguagem que se aproximava da última palavra das vanguardas dos anos 1920 e 1930, em termos de angulações, movimentos de câmera e manipulação do tempo da narrativa, Limite tornou-se um mito. Mas foi pouco visto, teve seu negativo danificado por más condições de conservação e, por um triz, não acabou perdido. Sua recuperação foi um trabalho de vinte anos, levada adiante pelos esforços do pesquisador Saulo Pereira de Melo e do professor Plínio Susskind Rocha - este último, o fundador do Chaplin Club, o cineclube carioca que promoveu a primeira sessão pública do filme, em maio de 1931.
Um dos fatores a alimentar a mística do filme, aliás, foi nunca ter tido distribuição comercial. Suas raras exibições no circuito de arte, no Brasil e fora dele, alimentaram sua fama e deram oportunidade a que surgissem fatos que aumentaram as polêmicas em torno dele - como o famoso artigo que o cineasta russo Sergei Eisenstein teria escrito sobre Limite e, segundo se apurou anos depois, era de autoria do próprio Peixoto. De temperamento difícil e arredio, Peixoto viveu sempre isolado em sua casa, no Rio, e deixou diversos projetos inacabados, entre eles, o que seria seu segundo filme, Onde a Terra Acaba, do qual foi filmado um único rolo. Além disto, o cineasta deixou roteiros (como A Alma Segundo Salustre, publicado em 1983) e um único romance, O Inútil de Cada Um (publicado em 1984 e que deveria ser o primeiro volume de um total de sete).
