21/06/2026

A herança da coruja

Série em 13 episódios de 26 minutos cada mergulha nas raízes e influências da cultura grega. São entrevistados intelectuais, como Cornelius Castoriadis e George Steiner, cineastas como Theo Angelopoulos e escritores como Vassilis Vassilikos, entre outros.

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Parte da programação on line do Festival É Tudo Verdade 2020, a série A Herança da Coruja, de Chris Marker, é uma das pérolas da edição. São treze episódios curtos (26 minutos cada), que dissecam, com a habitual liberdade criativa do diretor e roteirista francês, as influências da cultura grega sobre a história, a política, a literatura, as ciências e muito mais. A Grécia, afinal, é o berço de tudo o que chamamos de Ocidente. A série fica disponível na plataforma Spcine Play, gratuitamente, entre 27 de março a 19 de abril, bastando apenas cadastrar-se.
 
Mesmo entrevistando intelectuais da maior importância e cabedal, como George Spencer e Cornelius Castoriadis, a série não soçobra num excesso de academicismo. E isto decorre montagem ágil das conversas com cerca de 60 entrevistados, entre os quais cineastas como Theo Angelopoulos e Elia Kazan, e escritores como Vassilis Vassilikos. Um tema, uma palavra-chave, puxam o assunto a cada início de episódio, dando espaço para diálogos fascinantes, capazes de fornecer muito material para reimaginarmos o quanto da Grécia subsiste nas estruturas do nosso mundo atual - até porque evidentemente a intenção de Marker nunca foi olhar para o passado de forma sacralizada e sim identificar os afluentes desse manancial que é a cultura grega.
 
A produção da série, que consumiu dois anos - entre 1987 e 1989 - realizou-se em quatro cantos do mundo: Atenas, Paris, Berkeley e Tbilissi. Nesses locais, banquetes, com vinhos e frutas na mesa, reúnem intelectuais de vários países discorrendo sobre os temas que vão atravessar a série. Nada mais fiel ao espírito helênico. Mas há também entrevistas no formato tradicional, em estúdio, e um rico material de arquivo que sustenta as ideias que perpassam a tela.
 
Passa-se, assim, de uma discussão sobre esse arsenal de inteligências que atravessou as eras, com a Grécia servindo como modelo tanto para a união da Alemanha quanto para os delírios nazistas - afinal, quem se apropria, se apropria a seu modo. Mas, de qualquer modo, as inquietações gregas impregnaram todo o futuro do planeta, com conceitos como democracia vibrando através dos séculos e povos. Também a nostalgia dos próprios gregos diante de um país que não mais existe - objeto do interessantíssimo quarto episódio da série - fornece material a um entendimento da natureza de um povo tão peculiar, mesmo hoje, depois de tantas invasões e guerras que descaracterizaram aquele espírito dos gregos primitivos, os das lendas. 
 
Assistir à série é também encarar os próprios mitos e utopias diante da cultura grega, mergulhando nas direções apontadas por estes entrevistados tão eloquentes, que nos levam a repensar conceitos como história, que vem dos gregos, mas tinha entre eles um significado bastante distinto do nosso. 
 
Ainda que a série tenha sido formulada três décadas atrás, é fascinante observar o quanto estes diálogos têm algo a nos dizer, neste momento de crise em que o mundo está tão fragmentado e perplexo. Olhar para os gregos e suas ambiguidades é um saudável exercício.Afinal, de crise, sobrevivência e reinvenção eles entendiam.

Uma curiosidade: preste atenção à vinheta inicial da série, onde se pode detetar a inconfundível percussão do brasileiríssimo Naná Vasconcelos (1944-2016), devidamente identificado nos créditos entre os solistas da trilha. 
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