Documentário denuncia três casos referentes a contaminação ambiental afetando comunidades indígenas no norte do Canadá, em Nova Escócia. Um deles é em Shelburne, cidade prejudicada pela presença, por muitos anos, de um lixão; o outro é Boat Harbour, antigo santuário de fauna marítima destruído por resíduos de uma fábrica de papel; o terceiro é um projeto de extração de gás que pode poluir o rio Shubenacadie.
- Por Neusa Barbosa
- 29/04/2020
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Conhecida pela comédia dramática Juno, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar em 2008, a atriz canadense Ellen Page alia-se ao amigo e co-apresentador da série de TV documental Gaycation, Ian Daniel, para estrear na direção com este documentário de forte impacto ecológico, exibido em 2019 no Festival de Toronto e disponível na Netfllix.
Um dos episódios de Gaycation, uma série focada na cultura e nos direitos LGBTQ, aliás, foi filmado no Brasil, há 4 anos. Foi quando Ellen Page entrevistou, entre outros, o deputado Jean Willys, e o então deputado Jair Bolsonaro - cujos comentários homofóbicos mereceram reparos da atriz. Confrontando-o, ela disse: “Eu sou gay. Então, o senhor acha que eu deveria ter apanhado quando criança?”.
Nascida em Halifax, Nova Escócia, norte do Canadá, a atriz de 33 anos denuncia, em Algo de Podre na Água, o que chama de “racismo ambiental” na região. O termo foi cunhado pela professora Ingrid Waldrom, autora do livro que empresta o título original ao filme (There’s something in the water) e uma das entrevistadas.
Ao longo de enxutos mas densos 71 minutos, o documentário retrata a exposição das comunidades indígenas Mi’kmaq do norte do Canadá a resíduos tóxicos, provenientes de um lixão - na região de Shelburne -, e uma fábrica de papel, a Northern Pulp, que há décadas os despeja na baía de Boat Harbour. Um terceiro segmento aborda o plano de exploração de gás natural na região de Stewiacke, que, se implementado pela empresa Alton Gas, aumentaria drasticamente a salinidade das águas do rio local, o Shubenacadie, comprometendo as atividades de pesca das comunidades nativas.
No caso de Shelburne, o lixão foi criado em 1940 e só deixou de funcionar em 2016, depois de intensa pressão das comunidades indígenas e também negras locais - a cidade foi fundada no século 18 por negros libertos. Durante todos estes anos, grandes quantidades de lixo, inclusive hospitalar, foram depositadas e queimadas ali, produzindo altos índices de contaminação do solo e da água aos quais se atribui a ocorrência de muitos casos de câncer, especialmente o mieloma, como atestam dados levantados pela ativista Louise Delisle.
Enfrentando inclusive a oposição da prefeita local, Karen Mattatal, Louise lidera um movimento para construção de um reservatório em outro lugar, capaz de fornecer água limpa aos moradores de Shelburne. O custo deste reservatório, segundo ela, seria US$ 10.000. Só na Festa do Fundador da cidade, aponta Louise, gasta-se US$ 35.000.
No caso de Boat Harbour, a fábrica - aberta em 1965 pela Scott Paper -, ali despejou resíduos tóxicos decorrentes da fabricação do papel, matando toda a vida nesta baía, um antigo santuário. O acordo para o uso deste local, segundo a ativista Michelle Francis Denny, foi obtido na época mediante mentiras aos indígenas, que foram convencidos pela empresa de que não haveria dano ambiental. Décadas depois, não só Boat Harbour está totalmente poluída como a população local sofre de uma incidência altíssima de câncer.
No documentário, relata-se o compromisso da Northern Pulp - a empresa atual - de transferir para outro local sua estação de tratamento até 31 de janeiro de 2020. No momento, a fábrica paralisou suas atividades, enquanto se procura uma solução para os resíduos.
No caso de Stewiacke, o plano da Alton Gas é explorar gás natural em cavernas subterrâneas de sal próximas ao rio Shubenacadie, Para extrair o gás, grandes quantidades de sal seriam jogadas no rio, comprometendo fauna e flora. Por conta disso, o movimento das Avós Unidas, formado por mulheres Mi’kmaq da região, vem lutando para barrar o projeto, que é apoiado por políticos locais. Segundo as ativistas, várias mulheres indígenas estão desaparecendo misteriosamente ou sendo mortas em função desta militância. Mas elas afirmam que não desistirão.
