Enxuto (pouco mais de uma hora de duração), o filme encanta pelo domínio do ritmo e pela zombaria ao maniqueísmo - não é porque são os homens que pontuam sua visão sobre Annette que eles são pintados como personagens impecáveis ou dignos de crédito. Muito pelo contrário. E aí está o segredo do equilíbrio de uma comédia que se mostra capaz de sustentar com brio este risinho no canto da boca no desenho de seus personagens e de suas situações. É uma pequena joia do passado do diretor que ficaria mais conhecido por algumas de suas musas mais trágicas, especialmente Lola Montès (1955).
No dia do noivado de Line, ela fica em conflito entre seu amor verdadeiro e o possível casamento de conveniência. Os fantasmas de seu pai e do amante de sua mãe aparecem por ali e, sem ser vistos, trocam confidências sobre Annette, mãe de Line, e talvez possam interferir nos acontecimentos.
- Por Neusa Barbosa
- 08/07/2020
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Leveza, teu nome é Max Ophüls. O diretor, nascido na Alemanha, e com filmes produzidos também na França e nos EUA, assina em The Tender Enemy (1936), uma comédia elegante e sutil que apresenta todas as marcas de um estilo bem cultivado - discussão sobre as ilusões românticas, movimentos de câmera que valorizam os detalhes, fluidez na linguagem capaz de impregnar as imagens e os espectadores.
A história adapta peça do autor André-Paul Antoine. A ironia começa no título: a “doce inimiga” é Annette (Simone Berriau), uma viúva bela e determinada, no dia em que promove a festa de noivado de sua filha, Line (Jacqueline Daix), com um pretendente rico (Maurice Devienne). Um aviãozinho que passa lá no alto é o modo de Ophüls introduzir o elemento desagregador da aparência de felicidade: lá dentro viaja Jacques, o verdadeiro amor de Line, que fica perturbada com essa visão..
O conflito entre paixão e conveniência move a história, que será contada por fantasmas: o marido de Annette, o rico empresário Dupont (Georges Vitray), e Rodrigo (Marc Dabel), o amante de Annette, um domador de tigres. A ironia desta solidariedade post mortem dos dois rivais, agora pacificados, tempera com notas deliciosas a versão de cada um sobre o seu envolvimento fatídico com a mulher, bela e voluntariosa, impondo sua agenda a estes dois homens, agora podendo ser sábios e até filosóficos sobre os próprios erros.
Se a princípio a imagem de Annette soa negativa - até por sua imposição à filha deste casamento arranjado -, há muita água para correr debaixo da ponte e oferecer um outro lado sobre a personalidade desta personagem feminina forte, que está no centro dos acontecimentos mas é apresentada pela visão de seus homens. No devido tempo, um terceiro fantasma (Lucien Nat) surge para dar conta de um episódio desconhecido da juventude de Annette, capaz de mudar drasticamente a impressão de que se tratava de uma megera sem coração que parecia infiltrar-se até ali.
