Uma energia feminista percorre a cinebiografia Antonia - Uma Sinfonia, em que a experiente diretora holandesa Maria Peters apresenta a juventude de Antonia Brico (Christanne de Bruijn), a primeira mulher no mundo a reger uma grande orquestra, na década de 1930.
Recupera-se, de forma bastante romanceada, a biografia acidentada de Antonia, uma imigrante holandesa morando nos EUA desde a infância que procura superar sua origem pobre em busca do sonho de tornar-se maestrina - um projeto que, na década de 1920, era encarado com desdém dentro e fora do meio musical.
Interpretada com brio por Christanne de Bruijn, uma atriz que tem sua primeira grande chance como protagonista no cinema, a jovem musicista captura simpatia desde o primeiro momento. Ela é um misto de doçura e tenacidade, de coragem e persistência, seguindo em frente apesar dos inúmeros percalços colocados não só por sua condição econômica, mas muito mais por um machismo que chega às raias do doentio na tentativa de opor-lhe obstáculos.
Começa-se a acompanhar sua trajetória em Nova York, em 1926, quando o entusiasmo dela por ouvir de perto a orquestra guiada pelo maestro Willem Mengelberg (Gijs Scholten van Aschat) a leva a quebrar as convenções da sala de espetáculos, onde ela trabalha como lanterninha. É aí também que ela tem o primeiro contato com Frank Thomsen (Benjamin Wainwright), gerente de concertos e rico herdeiro, com quem viverá um complicado caso de amor.
Os homens na vida de Antonia são quase sempre um problema. Ou se recusam a ajudá-la, como o maestro Mengelberg, ou procuram seduzi-la, caso de Albert Goldsmith (Seumas F. Sargent), seu professor de piano que finalmente será o responsável por seu afastamento do Conservatório, quando ela recusa seus avanços. Mesmo Frank, que a ama, não consegue conciliar a paixão com a aceitação do sonho profissional dela, trabalhando para impedi-lo - felizmente, sem sucesso.
Cada um a seu modo, dois outros homens contribuirão para que Antonia chegue mais perto do que almeja - o regente alemão Karl Muck (Richard Sammel), sujeito rude, mas fundamentalmente honesto, que se torna seu professor em Berlim; e o amigo Robin (Scott Turner Schofield), que lhe arruma trabalho para sustentar-se, inclusive no cabaré onde ele mesmo toca.
É de se imaginar que a biografia de Antonia, inclusive sua atribulada história familiar na Holanda, tenha sido um tantinho exagerada com recursos ficcionais que, no entanto, não descaracterizam o principal - a admirável perseverança desta mulher, que abriu mão de tudo para perseguir seu sonho, afinal, realizado em termos. Mesmo tendo conduzido orquestras de primeira linha, como a Filarmônica de Berlim e outras, ela nunca conseguiu ser maestrina efetiva de nenhuma delas. E, como lembram os letreiros finais do filme, até hoje nenhuma grande orquestra do mundo tem à frente uma regente feminina, o que é sinal de que o machismo encarado por Antonia 80 anos atrás de algum modo continua firme e forte quando se trata de escolher quem deve empunhar a batuta.
