As mortes de Dick Johnson provavelmente vai ser um dos documentários mais comentados do ano, não porque fale de temas políticos ou pandêmicos, mas de algo inevitável – como seu título já entrega: a morte. Sua diretora, Kirsten Johnson, resolve acompanhar o processo de declínio psíquico de seu pai, o psiquiatra Dick Johnson, um homem bonachão e de bom humor, mas que está perdendo a razão com o passar do tempo. Assim, os dois decidem encarar o inevitável: como ele morreria, de causas naturais ou não?
Seguem, então, várias encenações, ao longo de todo o filme, das maneiras como Dick poderia morrer: um objeto cai na sua cabeça na rua, um construtor distraído bate com uma viga em sua cabeça, e por aí vai. Mas não é só isso, Kristen imagina seu pai chegando ao céu e sendo recebido por Jesus, querubins e até cantoras. É com uma alta dose de humor que o documentário evita ser mórbido, o que não quer dizer que seja superficial ou pueril. Pelo contrário, essa é uma profunda meditação sobre a vida, a morte e o luto. Obviamente, chegará à inevitável conclusão: jamais estamos preparados para morrer ou perder alguém. Mas esse é o paradoxo da vida, é preciso seguir em frente, mesmo que isso seja inevitável e nos consuma em certos momentos.
Kristen, então, segue em frente, mesmo enquanto seu pai é consumido pelo Alzheimer. Capturá-lo num filme enquanto ele ainda tem domínio de sua mente é registrar o homem brilhante, divertido que ele é, o pai carinhoso e piadista que sempre foi, e com cuja filha desenvolveu uma relação muito próxima. A cineasta foi criada numa família Adventista do Sétimo Dia, o que, entre outras proibições, incluía nao poder ir ao cinema. Seu pai, no entanto, um dia a levou para ver A Noiva de Frankenstein, e daí nasceu a paixão dela por filmes, que a levaria a escolher a profissão, diretora de fotografia e documentarista.
Em 2016, Kristen lançou Cameraperson, um documentário sobre seu trabalho como diretora de fotografia de documentários e sua mãe – exibido na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo – também vítima de Alzheimer, e fotógrafa amadora. São dois registros completamente diferentes nos dois filmes na forma, mas que, ao mesmo tempo, meditam sobre a memória e o trabalho de um ou uma documentarista.
A relação de Dick com a religião nunca é explicitada, mas pela ousadia de levar a filha ao cinema e suas visões do paraíso reconstituídas no filme, imagina-se que não é muito religioso, embora ele tenha sua congregação e amigos e amigas de lá. As mortes de Dick Johnson, inserido nesse contexto, não deixa de ser uma ousadia, especialmente ao representar imageticamente aquilo irrepresentável em sua religião.
Ganhador do prêmio de Inovação em Narrativa Não-ficcional, em Sundance deste ano, o documentário realmente busca uma maneira de narrar aquilo que ninguém quer narrar, a morte e suas dores. E, como se sabe, o ato de contar uma história é uma maneira de organizar o pensamento e encarar um problema de frente. O filme pode ser catártico para Kristen e seu pai – o final é inesperado –, mas não apenas para eles, para quem assiste também.
