Chacrinha era um fenômeno cultural de um tempo e um lugar. Só poderia existir no Brasil do passado. Hoje, não haveria espaço para o populismo dele, como quando jogava bacalhau para a plateia. Essa é uma teoria do documentário Chacrinha - Eu Vim Para Confundir e Não Para Explicar. É curioso, por exemplo, que seja Luciano Huck (um dos entrevistados mais desnecessários do filme) quem fala sobre o populismo do Chacrinha atirando o peixe ao público, quando ele próprio, Huck, faz na mesma linha, talvez até pior.
Chacrinha é um filme convencional sobre uma figura nada convencional. Sem muita ousadia formal, o longa dirigido por Claudio Manoel e Micael Langer segue a fórmula do “berço ao túmulo”, começando com o nascimento de José Abelardo Barbosa de Medeiros, em Surubim (PE) até a morte no Rio, em 1988. É claro que a ênfase está na sua carreira na televisão, em especial nas duas passagens pela Globo – que é uma das produtoras do longa, colocando o elenco da casa em cena, em especial Pedro Bial, que mais do que o todo-poderoso Boni, soa como uma espécie de porta-voz do canal.
A riqueza de imagens do acervo global resgata as coisas inusitadas do Velho Guerreiro, intercalando com depoimentos da viúva, dos filhos, colegas de trabalho, Chacretes (Rita Cadillac e Marlene Morbeck, a Loira Sinistra) e globais (como o casal Huck e Angélica, que, quando criança, ganhou o prêmio de menina mais bonita do Brasil no programa), além de diversas entrevistas dele próprio. Não há muitas revelações aqui, embora o cantor Tony Bellotto, já nos créditos finais, solte uma: nos bastidores vinham oferecer cocaína e uísque paraguaio. Pode não ser algo chocante, mas também não é algo falado por aí às claras.
O que Chacrinha - Eu Vim Para Confundir e Não Para Explicar deixa claro é que Abelardo Barbosa sabia dar exatamente o que seu público queria: o bizarro, o grotesco – fazia concursos como o da mulher mais peituda ou do cachorro mais pulguento do Brasil –, mas o fazia quase que com ingenuidade, algo que beirava a inocência infantil, embora, com picardia.
