Exibido na competição internacional do Festival É Tudo Verdade 2020, o documentário assinado pela diretora chilena Maite Alberdi é inusitado desde o começo, partindo de um anúncio de jornal que requisita homens entre 80 e 90 anos, que saibam lidar com tecnologia e tenham disponibilidade para morar fora de casa por 3 meses.
Mais surpreendente do que essa faixa etária é a missão que os empregadores pretendem entregar ao selecionado: espionagem das condições de um lar para idosos. Por essa estranheza, não é difícil suspeitar de que estamos diante de alguma espécie de trapaça, ou pegadinha. Nada disso. O que se passa em Agente Duplo é real, sobrepondo a investigação levada adiante por Sergio Chamy, 83 anos, e o próprio documentário, que o filma e aos demais moradores da casa de repouso, fornecendo uma visão de dentro de um ambiente quase sempre olhado com preconceito ou piedade.
Nada disso contamina, é certo, o olhar deste generoso octagenário, recém-viúvo, que enxerga neste trabalho inesperado uma oportunidade de sacudir a rotina, ainda que deixe preocupados seus filhos. Compenetrado, ele se apropria de seus materiais de trabalho, dignos de James Bond, como caneta e óculos dotados de mini-câmeras, e parte para uma observação atenta do lar - onde deve vigiar as condições de uma das residentes, cuja filha contratou a agência de detetives, suspeitando de maus-tratos à mãe.
Contornando as dificuldades para observar seu “alvo” - no jargão usado por seu chefe -, Sergio se enturma sem dificuldades. Num ambiente majoritariamente feminino - 40 mulheres, 4 homens -, ele se torna amigo,confidente e também objeto de desejo, particularmente de Berta, 85 anos.
Não raro, por sua empatia por pessoas que ele pode compreender muito bem, Sergio distrai-se um pouco de sua missão, ainda mais pela dificuldade de observar a mulher, que, com problemas motores, pouco sai de seu quarto. Sergio parece mais interessado em outras questões, como a solidão de todos ali - que, ao contrário dele, quase nunca recebem visitas ou têm parentes interessados neles.
Por conta da câmera atenta da documentarista, pode-se testemunhar a generosidade deste verdadeiro anjo da guarda da desmemoriada Rubira, da cleptomaníaca Marta e da poeta Petita - que, como Sergio, gosta de versinhos rimados. Em alguns momentos, também, pode-se sentir um relativo incômodo pela exposição destas pessoas - será que não estamos invadindo sua privacidade? De todo modo,esta invasão traz à tona algo que costuma não só estar escondido como ser desconsiderado, a invisibilidade social dos cidadãos idosos recolhidos em instituições. Por isso, é tão genuína a emoção de Sergio.
