Documentário fecha a trilogia do cineasta chileno Patricio Guzmán, iniciada por "Nostalgia da Luz" (2010) e "O Botão de Pérola" (2015). Tal como os filmes anteriores, este expressa uma emocionada e profunda reflexão sobre a destruição da utopia de um país livre e igualitário, causada pelo golpe militar de 1973. No Sesc Digital (até 28/8/2024)
- Por Neusa Barbosa
- 01/03/2021
- Tempo de leitura 2 minutos
Um dos vencedores do Prêmio Olho de Ouro no Festival de Cannes 2019, A Cordilheira dos Sonhos fecha a inspirada trilogia do cineasta chileno, iniciada pelos sublimes Nostalgia da Luz (2010) e O Botão de Pérola (2015). Tal como os dois exemplares anteriores, o novo documentário expressa uma emocionada e profunda reflexão sobre a destruição da utopia de um país livre e igualitário,imposta pelo golpe militar de 1973. Basicamente, Guzmán realiza um inventário das ruínas deste sonho, do qual participou ativamente, e cuja luta está registrada em sua famosa série documental A Batalha do Chile (1973-1979).
Talvez ainda mais do que nos dois documentários anteriores, Guzmán se coloca pessoalmente, começando com a confissão de seus sentimentos, quando retorna a Santiago, a cidade onde nasceu e onde deixou de viver há mais de quatro décadas (mora na França) - ele não a reconhece mais. Para lidar com a sensação de estranheza que experimenta quando volta a essa pátria, cujas raízes nunca abandonou - como está nítido em toda a sua filmografia - usa, então, do recurso à Cordilheira dos Andes, a imagem mais emblemática do país.
Essa longa parede montanhosa que, como diz um entrevistado, ao mesmo tempo protege e separa o Chile do resto do mundo cria a metáfora ideal para descrever a singularidade do país, a solidão e a aridez que impregnam sua identidade. Além de suas próprias observações, que assimilam com propriedade história, geografia e biografia pessoal, Guzmán recorre a uma série de alentadas entrevistas, como as dos escultores Francisco Grazítua e Vicente Gajardo, a cantora Javiera Parra (neta de Violeta), o vulcanólogo Álvaro Amigo, o escritor Jorge Baradit - este, autor das mais lúcidas reflexões sobre os efeitos devastadores do fascismo pinochetista, como a desumanização de seus opositores que servia como pretexto para toda sorte de abusos, torturas e desaparecimentos, seguidos de uma reinterpretação mítica desses atos pelos militares, que ele descreve como “banais e asquerosos”.
Um personagem especial dentro do filme é Pablo Salas, que há 37 anos filma obsessivamente a resistência chilena, formando um arquivo pessoal precioso da história deste período e não só - ainda hoje, ele percorre as ruas de Santiago, acompanhando toda sorte de protestos.
Repleto de camadas, o filme é uma lúcida reflexão, encharcada de belas imagens, de momentos intimistas e poéticos, sendo um digno exemplar do estilo único deste veterano realizador.
