28/07/2026
Documentário

Flores do Cárcere

As trajetórias de Xal, Mel, Dani, Pérola, Chachá, Rosa, Kátia e Sílvia, egressas ou ex-funcionárias da desativada Cadeia Pública de Santos, revisitando memórias de um passado problemático e os rumos para a reconstrução de suas vidas.

post-ex_7
Inspirado no livro homônimo de Flávia Ribeiro de Castro, o documentário de Bárbara Cunha e Paulo Caldas assume um ponto de vista inusual em filmes sobre mulheres na prisão, escolhendo o momento após o aprisionamento para desvelar suas histórias. 
 
A metáfora de um período encerrado no passado é completa com a visita de diversas personagens à prisão desativada onde elas viveram alguns anos - a Cadeia Pública de Santos (SP). Seis ex-detentas e duas ex-funcionárias compartilham suas lembranças entre estas paredes desoladas, cenário de experiências não raro traumáticas, em condições agudas de superlotação (a capacidade era 60, mas havia 250 presas), mas superadas o bastante para que todas as revisitem com bastante franqueza.
 
Há diversas características em comum nos relatos das ex-presas, Xal, Mel, Dani, Pérola, Chachá e Rosa (que muitos reconhecerão como a atriz Nash Laila, intérprete de filmes como Deserto Feliz, de Paulo Caldas, ou Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro). Como o fato de que todas vieram parar na prisão por algum tipo de envolvimento com drogas, em geral por parceria com um namorado traficante. 
 
Um recurso eficiente para o documentário é contar com o material filmado em 2005 por Flávia Ribeiro de Castro, de uma ONG que trabalha com ressocialização de ex-detentas e que era conhecida por elas como “professora”. O filme de 16 anos atrás permite uma comparação entre as personagens como eram dentro da cadeia, o que diziam, sofriam e sonhavam, e o que se tornaram hoje, numa vida reconstituída em outros termos, sem idealização dos próprios atos nem das atitudes necessárias para tomar outros rumos.
 
Um aspecto importante do filme é levantar os preconceitos que elas encontraram na vida após o periodo atrás das grades, talvez o aspecto mais complicado de enfrentar. Dani, que hoje está formada em Educação Física e trabalha como professora, não tem dúvidas sobre as razões dos altos índices de reincidência criminal: “As pessoas saem e voltam porque não têm estrutura familiar”. 
 
Um contraponto interessante é contar com os depoimentos de duas ex-funcionárias da unidade, a carcereira Kátia - que sofreu o trauma de ter sido tomada como refém numa rebelião e ter uma arma apontada para o pescoço - e a chefe da carceragem Sílvia. Em nenhum momento, o filme tenta dourar a pílula e suavizar a instabilidade e a violência potencial de qualquer prisão. Mas é claro que sua ênfase está muito mais nas possibilidades de regeneração de tantas trajetórias humanas a partir de apoios devidamente distribuídos. Neste sentido, o nome do filme e do livro que o inspira são certeiros - para que flores brotem, é necessário semear.
post