Em 2015, a artista tcheca Barbora Kysilkova expôs suas pinturas numa galeria de Oslo. Durante a noite, dois ladrões entraram e roubaram duas delas. Ao conhecer um deles, Karl-Bertil, no tribunal, a pintora conversa com ele e o convida para posar para ela. Deste contato nasce uma amizade inusitada. No Sesc Digital até 3/6/2025.
- Por Neusa Barbosa
- 03/05/2021
- Tempo de leitura 3 minutos
O roubo de duas de suas pinturas de uma galeria em Oslo em 2015 mudou a vida da artista tcheca Barbora Kysilkova, em direções que ela não poderia imaginar. Identificados os dois ladrões pela câmera de segurança da galeria, ela foi a uma audiência no tribunal e acabou se aproximando de um deles - Karl-Bertil Nordland. Um contato que se transformou, ao longo de meses, numa inusitada amizade.
Descrita assim, a história parece uma daquelas ficções moralistas e edificantes. O melhor de tudo é que não é nada disto e ainda é um documentário mesmo, cujos fatos são acompanhados com tanto rigor, empenho e respeito, além de engenho narrativo, que o filme dirigido por Benjamin Ree venceu um prêmio especial no Festival de Sundance 2020 por esta criatividade. Além disso, Ree recebeu uma indicação ao prestigiado Sindicato dos Diretores da América.
A artista e o ladrão evolui diante de nossos olhos com a mesma espontaneidade com que este relacionamento entre seus dois protagonistas surgiu e se desenvolveu. Quando começou a filmá-los, Ree não sabia onde é que essa história toda iria dar - e Karl-Bertil era, na época, alguém particularmente imprevisível. Viciado em drogas, já tinha passado 8 anos na prisão antes do incidente com os quadros de Barbora - que, aliás, não aparecem, entre outros motivos, porque Karl estava chapado no dia do roubo e não tem memória do que fez com eles.
Com seu olho sensível de artista e também por uma sintonia peculiar com o lado sombrio da humanidade - que ela conhece bem, como sobrevivente de um relacionamento abusivo -, Barbora é capaz de enxergar a vulnerabilidade de Karl, que ela começa a pintar.
Alguns dos aspectos mais interessantes do documentário estão na forma como não se esquiva de mostrar os lados menos edificantes de Karl - que certamente oculta camadas emocionais que Barbora não alcança - e também, num determinado momento, inverter o ponto de vista. Se até ali seguíamos Barbora falando de Karl, logo teremos também a sua visão dela, revelando uma sensibilidade e inteligência aguçadas.
Há um terceiro personagem, Oystein, o namorado de Barbara, com participações pontuais mas importantes para acentuar a complexidade de toda essa vivência que o filme está captando em tempo real.
O equilíbrio está neste modo como a câmera consegue habitar a intimidade destas três pessoas, captando situações não raro conflituosas e difíceis sem nunca se tornar invasiva. Muito pelo contrário, A artista e o ladrão contempla a peculiaridade destas pessoas, sem dúvida, nada banais, e sua abertura para construir novas formas de viver e pensar. Além disso, é capaz de criar suspense com algumas reviravoltas, deixando para o final a resposta para perguntas que ficaram para trás - como o que aconteceu ao outro ladrão. Ao dispor com inteligência de seus elementos, o filme se torna muito mais do que um mero registro, tendo a coragem de não edulcorar a imagem de seus protagonistas nem de impor-lhes um selo, um julgamento moral.
