Forma é tudo no turco O Anúncio, uma sátira política sobre uma tentativa de golpe militar na Turquia em 1963. Dirigido por Mahmut Fazil Coskun, o longa tem uma câmera sagazmente estática que traduz em imagens a inércia de seguir ordens sem fazer perguntas, mesmo diante do absurdo da situação que se apresenta. A questão política do longa remete a um episódio do passado mas faz um comentário também sobre o presente do país.
Num táxi em Istambul, a câmera se concentra em passageiros com semblante tenso. Eles são Reha (Ali Seckiner Alici) e Sinasi (Tarhan Karagoz). Não há concessões, a imagem está enquadrada neles. Alguns fatos acontecem fora de quadro, o que só aumenta a sensação de desorientação do público. Quem são essas pessoas? Esses personagens serão apresentados aos poucos, e fica claro sua identidade quando, mais tarde em companhia de outros dois, Kemal (Murat Kılıç) e Rifat (Şencan Güleryüz), colocam seus uniformes militares.
A missão deles é tomar uma rádio em Istambul e anunciar um golpe militar. Colegas em Ancara farão o mesmo, e o exército sairá às ruas para garantir a segurança. Coskun, que assina o roteiro com Ercan Kesal, trata de toda a situação com seriedade, mas também com o humor típico de uma boa sátira política, como é o caso aqui, destacando absurdo em cima de absurdo. Rifat, por exemplo, sabe cantar com muita afinação o hino da Coréia do Norte.
A maioria das cenas acontecem em ambientes fechados, trazendo ao filme uma sensação de claustrofobia e realçando o sentimento de desorientação que permeia os personagens – em especial, a população turca para entender direito o que estava acontecendo. A câmera que jamais se move ajuda a acentuar esses elementos.
O corroteirista Kesal trabalhou com Nuri Bilge Ceylan em filmes como Era uma vez em Anatólia, que tem muito em comum com este O Anúncio, em seu retrato quase frio e distante de absurdos das instituições do país. Mas, em certa medida, mais do que falar da Turquia e do reflexo do passado no presente, o longa aborda as dinâmicas de poder e como as massas ficam de fora delas.
Dividido em duas partes claras, a segunda metade de O anúncio é mais abertamente cômica. Coskun dialoga com uma série de filmes que lidam com absurdos da vida política e pessoal – em especial, obras do cinema romeno, mais especificamente, Polícia Adjetivo, de Cornelio Porumboiu, mas também com o humor peculiar e melancólico de Aki Kaurismäki.
Países de maior instabilidade política, como o Brasil, terão muito mais a se identificar com essa comédia de absurdos sobre o maior absurdo que é o jogo político. O dono da rádio (Serkan Ercan), por exemplo, num dos melhores momentos de humor do filme, diz que nunca sabe como se preparar para um golpe politico. Sua fala transmite tanto a ironia quanto o estado de insegurança e, em si, traduz o sentimento de muitos e muitas.
