19/07/2026
Suspense Drama

Festim Diabólico

Membros de famílias ricas, Brandon e Phillip decidem cometer o crime perfeito. Matam, sem motivo, um colega, David, e escondem seu corpo numa arca na sala de jantar do apartamento de Brandon. Nessa noite, dão um jantar ao qual comparecem amigos e parentes do morto e também um antigo professor de Brandon e Phillip.

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De várias maneiras, Festim Diabólico foi um marco na carreira de Alfred Hitchcock. Foi seu primeiro filme em cores e também o primeiro em que ele assumiu pessoalmente a produção. Talvez por isso, ele quis marcá-lo com uma empreitada ambiciosa - reproduzir, na tela, o clima de uma peça de teatro de Patrick Hamilton, em que toda a ação se passava num único ambiente, em tempo contínuo, mostrando dois jovens que haviam matado um amigo e oferecido um jantar, com o corpo escondido num móvel da sala.
 
A ambição levou Hitchcock a sair de sua zona de conforto, abrindo mão de suas habituais técnicas de montagem. Não só isso. Querendo fazer com que o filme parecesse uma longa sequência sem cortes, o diretor e produtor teve que encarar vários desafios. 
 
No set, foram construídos cenários com paredes móveis, acondicionadas de rodinhas, assim como a mobília, para permitir a instalação dos trilhos em que pudessem rolar as câmeras. Para evitar os ruídos, foi instalado um piso especial. E, como os rolos de filme não passavam de dez minutos, o roteiro foi elaborado com cenas da mesma duração. Cada cena acabava num fundo neutro, como as costas do paletó de um personagem, iniciando-se a seguinte no mesmo plano para manter a ilusão da continuidade da ação sem interrupções. 
 
A façanha foi obtida a partir de dez dias de ensaios com atores - com movimentos cuidadosamente coreografados -, câmeras e luzes. Não se esqueça que a ação começa num final de tarde e adentra pela noite, havendo uma janela aberta no fundo (que também era um cenário, mas deveria ser fiel às mudanças da luz do dia). As filmagens duraram 18 dias. Outros nove foram necessários para os retakes, dos últimos cinco rolos, e apenas porque o diretor de fotografia não tinha acertado no tom do crepúsculo, que havia ficado um laranja forte e vulgar demais, na visão do exigente Hitchcock.
 
Mesmo tendo obtido sucesso de público à época, Festim Diabólico não figurou entre os orgulhos do diretor, que confessou ao colega François Truffaut, em seu famoso livro de entrevistas (Hitchcock/Truffaut- Entrevistas), que não sabia porque havia se metido nessa “armadilha”. Todo o aparato que montara para produzi-lo, afinal, pareceram-lhe uma camisa de força, com um resultado que o frustrou.
 
O público, no entanto, pode discordar. A história de Brandon (John Dall) e Phillip (Farley Granger), dois jovens ricos que decidem matar, sem nenhum motivo, um colega, David Dick Hogan), certamente incorpora aquele sentido macabro que tanto seduzia nos filmes de Hitchcock. Embora, é certo, esta seja bem mais fria - talvez algo que apelasse mais ao universo de uma Patricia Highsmith.
 
O fato de que os dois assassinos sejam amantes, com a visível dominância de Brandon sobre o impressionável Phillip, fica evidente nas entrelinhas, entrando na composição da psicologia complexa que os movia na cruel iniciativa - que se pretende como um crime perfeito, encerrando, como toque final, esconder o corpo do morto numa arca, na sala, em cima da qual Brandon coloca os pratos de um jantar oferecido a parentes e amigos do morto, que não suspeitam da macabra ocorrência.
 
Estão presentes o pai de David (Cedric Hardwicke), sua tia (Constance Collier), a noiva Janet (Joan Chandler), um colega e ex- da moça, Kenneth (Douglas Dick), e um ex-professor dos jovens, Rupert (James Stewart). É com este professor, finalmente, que Brandon, sobretudo, quer jogar um jogo de astúcia.
 
Neste duelo de inteligência com o professor é que a trama aposta como espinha dorsal, criando-se o suspense na intuição deste sobre o que realmente está acontecendo naquela sala. 
 
Realizado em 1948, três anos após o final da II Guerra, há um detalhe da psicologia de Brandon que remete aos nazistas. Como eles, o jovem rico e branco, defende uma interpretação bastante peculiar da obra de Nietzsche, que o leva a defender, inclusive numa conversa ao jantar, que seres superiores teriam o direito de eliminar aqueles tidos como inferiores. 
 
É fato que o filme não sustenta, nem pretende sustentar, essa discussão fora do esquadro de uma história criminal - aliás, baseada em fatos reais (o caso Leopold/Loeb, ocorrido em Chicago). Mas a referência, que está por trás dos sinistros grupos supremacistas brancos que ainda assombram o mundo, também dá ao filme uma inquietante contemporaneidade. 
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