O trio familiar e o jovem de 17 anos conhecem-se por acaso em junho de 1940, quando franceses de todas as condições sociais abandonaram suas casas, procurando fugir da guerra recém-desencadeada, atulhando estradas que os alemães naquele momento bombardeavam implacavelmente. Num desses bombardeios, o carro de Odile é atingido e ela perde todos os seus bens. Ainda desorientada, encontra no rapaz Yvan um guia esperto na floresta e um hábil caçador - um dos inúmeros talentos do jovem órfão, acostumado a cuidar de si mesmo e que vive no limite da criminalidade, em tempos em que não havia muitas instituições nem valores confiáveis mesmo para quem costumava contar com eles, caso da professora Odile e seus filhos educados e de classe média.
O quarteto encontra refúgio numa ampla casa abandonada - que depois se descobre pertencer a um casal de músicos judeus - e vive uma espécie de hiato de tempo. Longe dos campos de batalha, tudo o que fazem, especialmente Odile, é recobrar seus sentimentos, dilacerados pela perda do marido e de todos os referenciais. Uma série de vínculos se forma entre a mulher madura, inegavelmente atraída pelo estranho adolescente, que ainda funciona como uma espécie de herói e irmão mais velho para seus dois filhos. La Béart se despe corajosamente numa cena ousada, exibindo sem medo sua plástica invejável, uma boa companhia ao seu talento e carisma estelar.
No conjunto, Les Égarés é um drama intimista, sóbrio, de interpretações contidas, bem ao estilo de Téchiné, que conta com a interpretação harmoniosa de seu pequeno elenco, inclusive dos meninos mais novos. Mesmo sem ser genial, o filme tem ainda o mérito de iluminar aspectos não muito abordados no já muito visitado tema da II Guerra, como a vida cotidiana de quem escapou aos campos de batalha.
Cineweb-16/5/2003
